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Encomenda*

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Decidiu não ir trabalhar e, já pela manhã, foi chorar a dor de corno na venda. Seu carango velhinho, mas bem cuidado, o levou. Afinal, era uma ocasião especial. No final da tarde, quando deveria sair para pegar o turno da noite, perdeu a hora à espera dos biscoitos que a esposa do Seu Sebastiano tão efusivamente insistiu em fritar na hora. Ela gosta de receber bem os visitantes.

Reza a lenda que usar o guizo da cobra certa, depois de abençoado, no bolso direito da calça traz fartura de mulher. E de disposição para dar conta de todas. Sem pilulazinha azul, que não é coisa de macho.

Depois de ouvir que o imprecado “mocô” veio do estrangeiro, benzido por um pagé-paxá-pai-de-mãe-de-santo-virgem e que fazia milagres, resolveu deixar seu possante em troca do imprescindível.

Enquanto Seu Sebastiano foi dar umas voltas nas redondezas para testar o carro, ele se atracou com Dona Desumira, na cozinha, sentido-se mais poderoso que a chama que fazia o óleo quente estalar. Funciona mesmo, pensou ele.

Depois de uma longa caminhada de volta para casa e várias paradas no caminho, como que por milagre ainda conseguiu se lembrar da recomendação: Ao chegar em casa, depois de uma bimbada, vá direto à porta dos fundos. E não entre com a roupa que traz histórias. Dispa-se no quintal, deixe a roupa no tanque e só entre em casa se estiver completamente nu. Com o guizo na mão e mais nada.

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*o título foi um presente! [a você, obrigada!]

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a moça que escreve sem roupa

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‎”Tentar dar o troco achando que não vai se machucar em dobro mais tarde é burrice.”*

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Não tem era uma vez. Apesar de viver de passado. Joga migalhas circenses para delas se alimentar. Sempre preterida, esnoba um falso ego mascarado de virtude. Camaleia-se por tecos de atenção, vende mais do que alma. Mira a vítima e suga seus ídolos, gostos, quereres. Transforma-se. Despersonaliza-se. A cada novo alvo, outra. Na falta de graça, doa o corpo. Exige do outro o que não oferece nem a si mesma. Grita garbo, elegância e concordância para esconder a falta de caráter. Expatriada, respira lembranças inventadas. Amaldiçoa os que levam a bênção de nunca terem sido. Cuspiu seu veneno em minha direção. Troco? Não precisei fazer nada. Secou sozinha, retorcida pelo ciúme e pela amargura.

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*atribuem essa frase à Buk. não achei a original para confirmar

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O Mistério do Planeta*

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Desde ontem que me pego pensando em sobre o que escrever e como escrever. Conto? Poema? Crônica? Acho o último gênero, um dos de maior polêmica sobre sua definição, o mais apropriado, pois a mulher traz a polêmica consigo desde os tempos imemoriais. E nesse tipo de texto posso dialogar num tom mais intimista com vocês leitoras, a quem dirijo e dedico esse texto. Começo falando sobre o título, que roubei de uma canção fantástica dos Novos Baianos, mas que nada tem a ver com as linhas que virão mais abaixo, a letra não, mas o título eu julgo ser perfeito, vamos lá. Vindo pro trabalho me lembrei de um filme, na verdade de um pedaço dele, uma fala pra ser mais exato, não sei mais o nome, os atores e do que se trata, apenas que um dos personagens, um senhor excêntrico e que andava nu pela casa mesmo com as filhas já adultas – eram mais ou menos três ou quatro – num dado momento diz em tom altivo e resignado, Mesmo que eu viva duzentos anos ao lado de vocês mulheres, jamais irei entendê-las. Eu devia ter uns oito ou nove anos, e essa fala colou em mim, me intrigou, eu que na época não tinha condições de interpreta-la, e hoje sim, sei exatamente o que ele quis dizer. Desde garoto convivo com mulheres, mãe, irmã – apenas um ano e meio mais jovem – tias, primas, avós, colegas, esposa, namoradas, ficantes etc. Sempre fui amigo de vocês, e sempre procurei observar seu comportamento, mesmo sendo um cara distraído. E sei que não sou capaz de compreendê-las, assim como o personagem do filme. Quando me dei conta disso, ainda com meus vinte e poucos anos, fiquei transtornado, duvidei da existência da felicidade no mundo e de que a mulher é mesmo uma criação de Deus. Ah! os arroubos da juventude… Hoje em dia o que mais me atrai nas mulheres é justamente esse mistério insondável, essa instabilidade emocional e de quereres que mudam mais que as fases da lua. Sim, o não-saber vocês é o que me aproxima da felicidade e de querê-las cada vez mais de lá pra cá. Não há monotonia ao lado de uma mulher, sei porque também tenho amigos homens, e nós somos muito previsíveis, vocês não, há nesse comportamento, que creio eu, foi muito aperfeiçoado desde Eva, uma vocação para dominar sem parecer que estar dominando, de ser forte sem perder a doçura, de ser obstinada sem esquecer da beleza, de ser atendida com o mínimo esforço, às vezes basta um olhar ou um biquinho. E eu poderia ficar escrevendo horas sobre os mais diversos aspectos da feminilidade, que me atraem e me fazem ser um eterno apaixonado pelo sexo oposto, mas hoje quero pensar e louvar apenas a esse mistério. Um brinde a vocês mulheres, outro brinde a esse mistério, que é inato. Continuem me intrigando, me trazendo felicidade, dores de cabeça e a vontade de ser cada vez melhor.

Dedico esse texto às mulheres da minha vida, Mãe, Irmã e Sobrinha-afilhada. Dedico à minha futura esposa, que até agora também é um grande mistério. E às leitoras que me incentivaram a escrevê-lo e às que não puderam incentivar mas agora me leem, misteriosamente.

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*Texto de André Salviano pra celebrar o dia de hoje. Feliz Dia Internacional da Mulher.

André Salviano – um admirador da alma feminina [e do corpo idem], como ele mesmo diz – é poeta. E um eterno apaixonado. Escreve na Confraria dos Trouxas e no 4 pecados.

Jardim inchado de silêncio *

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foto: arquivo pessoal

“… tempo, essa volúpia de fazer sumir sem trégua…”
Carlos Nejar

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Minha mania de contar esquinas se perdeu de você. Quantas, só hoje, dobraram seu caminho?

Daqui, consigo ainda imaginá-la. Com um sapatinho boneca sem salto, cabelo solto e meio molhado, vestidinho leve, sacola de compras. A vontade que me dá, hoje, de ter aproveitado, no ontem, esses passeios contigo me consome. Nunca fui. Controlava seu trajeto, engaiolava seu tempo. Sentia-me seguro na insegurança que te impingia.

Fiz nossa relação encruzilhar-se com a vida. Sem te dar opção.

Foi numa esquina que de mim você se desvencilhou.

Aquele dia não seria de mercado. Embora eu precisasse de tanta coisa! A lista que eu havia feito ficou sobre a cômoda, ao lado da chave. A sacola nem saiu do armário. Eu não reparei. Tão cega era minha certeza desleixada.

Você andou à revelia, suponho. Talvez, tenha comprado um livro e com ele sentado-se em um café não muito longe de casa. Sua atenção insistia em desviar-se da ficção, sem controle. Era vida que você buscava. Desde o começo. Meu medo sempre foi que você a encontrasse. Quase posso sentir o momento do trincar: você percebeu a redoma que minha obsessão medrosa transvestida de amor criou para te sufocar e decidiu-se. Nem pedaço sobrou.

Um longo suspiro, como o que deve ter selado sua liberdade, sela hoje minha prisão. Esforço-me para sentir um traço ainda que longínquo do seu perfume pela casa, nas roupas que ainda são suas, mas já não te vestem. Encontro-o, embaçado, sujo e confuso lá nos fundos. No seu jardim. A única parte da casa que era sua e só sua. Você cuidava dele como cuidava de mim e eu nunca aceitei te dividir; convidava-me a fazer parte dele e eu nunca quis. Estava ocupado demais em nunca te perder.

Hoje, seu jardim é minha casa. Cuido dele como, antes, não cuidei de você. As flores e até frutos, quem diria!, retribuem meu carinho ao te trazerem de volta para mim em forma de cor, cheiro, sabor. Até a textura aveludada da sua pele consigo sentir em cada pétala que toco. Tuas palavras antes tão abundantes e nunca ouvidas escureceram-se, enterraram-se aqui e por mim são veladas.

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* Texto originalmente publicado na Confraria de verão.

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Por redução ao absurdo*: sátiro ou pobre palhaço erudito devoluto e estranho

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tem tanto meu em tudo
que ele não admite
e eu
nem preciso fingir
nada parece o que é
mas tem a música, o livro
menos troféus
é pedir muito?
e esses pronomes possessivos
in-trínsicos-transferíveis
a minha na sua
a sua em mim
tão impessoais
indefinidos
singulares em número e verbos
plurais em vontades e números
e versos
pedintes
não vejo, não peço
peco
e observo
de longe
cada vez, mais longe

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* prova da falsidade, ao obter uma consequência lógica absurda. é um procedimento matemático, mas se assemelha à ironia, método predileto do satirista.

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Dadinhos

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Achei que era seu braço que se enlaçava no meu. Eu estava embaixo da mesa, brincando de não me esconder. De fingir que fujo. Para você não deixar. Me pede pra ficar. Me pede e eu vou dizer que não e, talvez, chore sentada no chão com as pernas encolhidas abraçada aos meus joelhos e, talvez, tente te afastar. Não deixe. Me segure firme para eu te [re]conhecer, saber quem você é e me permitir ser quem sou.

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além das nuvens

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Quase deixei mais da metade da pilha de louça suja por lavar para vir escrever. Bendito vício. Não por medo de esquecer, tenho uma memória, por vezes, maldita. Vim porque precisava dizer. Tenho urgências ansiosas. Ela não quer sempre ser a chata. Nem a forte. Nem a que não espera algo bom de alguém. Ela ouviu “você é minha consciência” e ficou feliz. Pois não fique, eu disse, não fique. De acordo com o “Menino de Ouro”, “deitamos mão ao que diz o povo e falamos sem pensar”. Ela questiona até os ditos populares. Eu digo a ela, é fuga. E ela me escuta? Não! E se propõe àquele papel, quando não pedem. Não pedem, mas ela ouve. Alertei, é loucura. Ninguém sabe o que ela sente. Nem mesmo eu. Vejo-a fazendo laços alheios e se perdendo em nós. Não posso gritar, nem te avisar, ela não deixa.

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