Sirene

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Menina da cidade grande, no auge da sua candura experiente e descolada, era ‘novidade’ para os meninos do interior. Sempre tinha pretendentes e, às vezes, mais de um namorado, ao mesmo tempo.

Nesse dia, sua avó pediu que mudasse a plaquinha do jazigo da família e ela prometeu que o faria. Mas, entre um ‘amasso’ e outro, fugindo de confusões e flagras, lembrou-se de passar na serralheria só no final do dia.

Não sabia que cemitérios de cidade pequena ‘fecham’ cedo e entrou, sem se preocupar. Depois de cumprir a promessa, foi visitar o túmulo de um antigo namorado. Não sabe por quanto tempo ficou, ali, deixando-se invadir pelas lembranças dos momentos tórridos que passaram juntos.

Anoiteceu sem que ela percebesse.

Estranhou a falta de iluminação e da Lua. Aos ‘trancos e barrancos’, perdendo-se entre flores de plásticos e fotos 3×4, tropeçando em jardineiras improvisadas, sendo arranhada pela ponta dos crucifixos e quinas das sepulturas, encontrou a saída. Forçou a porta e nada. Gritou e nada. Esperou e nada.

Até que viu, ao lado, atrás de uma planta amarelada, um botãozinho vermelho. Apertou.

Uma sirene ensurdecedora foi disparada. Em questão de segundos, todos os moradores estavam, do lado de fora, fofocando, aguardando o desfecho e fazendo apostas.

E, de repente, sai ela. A doce ‘menininha’. Corada. Vestido rasgado. Joelhos e palma das mãos esfolados. Cortes pelo corpo. Risadinha de canto. E sozinha.

Beatas rezavam. O padre a benzia. E todos especulavam.

‘Cadê o moço?’ ‘Ela deve ter matado o coitado por uso excessivo e enterrado aí.’ ‘Dizem que é tarada, insaciável.’ ‘Ela não é a namorada do filho da Dirce?’ ‘Não, ela namora o filho do Sr. Ernesto.’

Os namorados não quiseram explicação. Um até aceitava o outro. E, talvez, aceitariam o fato de ela fornicar, com um terceiro, no cemitério. Mas a cidade inteira estar ciente e comentando era inadmissível. Podiam dividi-la, desde que apenas os envolvidos soubessem. Ser motivo de chacota era, para eles, a parte mais dolorosa e, para isso, não havia perdão.

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[*Inspirado em uma twittada despretensiosa de um amigo. Sinapses alteradas. Obrigada!]

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46 Respostas

  1. Pingback: Tweets that mention Conto novo inspirado numa twittada despretensiosa de um amigo. Sinapses alteradas. -- Topsy.com

  2. rsrsrs…que história, aconteceu de verdade?

    19/04/2010 às 11:17

    • Menina Misteriosa

      Desabafando,
      Em parte, sim… risos…

      23/04/2010 às 16:07

  3. A tuitada é essa aqui:

    E o amigo é este aqui:
    http://minicontosperversos.blogspot.com/

    E o amigo odeia coisas desnecessariamente enrustidas.

    A propósito, como é bom menina da cidade em cidade do interior.

    19/04/2010 às 11:37

    • Menina Misteriosa

      Gustavão,
      Não provoca! A sugestão de ‘coisas desnecessariamente enrustidas’ dá margem para outro post… cuidado!
      A propósito, do outro lado, também acho!

      23/04/2010 às 16:09

  4. Nossa, realmente mentalidades interioranas são escrotas, ela praticamente foi sepultada depois que saiu do cemitério, antes tivesse ficado lá ad eternum! Mentes vazias sempre projetam frustrações na vida alheia, fato da vida cotidiana no interior, e eu conheço bem…Adorei o conto amiga! bjoks…

    19/04/2010 às 12:10

    • Menina Misteriosa

      Paty,
      Ou, antes tivesse aproveitado, já que ia levar a fama mesmo, né? ;)
      Obrigada! Beijo!

      23/04/2010 às 16:10

  5. alguém cavou a própria cova, ou literalmente fodeu com ela.

    19/04/2010 às 12:39

    • Menina Misteriosa

      Marcelo,
      Podia ter aproveitado e feito mais, não acha?

      23/04/2010 às 16:13

  6. MissUniversoPróprio

    Coitada…a menininha levou a fama, sem nada ter feito!

    =** ;)

    19/04/2010 às 14:01

    • Menina Misteriosa

      Pois é, Miss!
      Boba dela. Devia ter feito! ;)

      23/04/2010 às 16:14

  7. É… enfrentar as objeções alheias não é pra todo mundo… Ótimo texto! Bjs!

    19/04/2010 às 14:22

    • Menina Misteriosa

      Andrea,
      Ainda mais num cemitério! Doida, coitada! ;)

      23/04/2010 às 16:15

  8. Ai coitada.
    e o desespero?

    Beijo,
    Nara

    19/04/2010 às 14:55

    • Menina Misteriosa

      Nara,
      E a vontade de rir, diante da cena?
      o.O

      23/04/2010 às 16:17

  9. “alguém cavou a própria cova, ou literalmente fodeu com ela.”

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

    Bom, agora, precisamos saber que contou essa história, porque essa menina da cideade grande não me ngana. Joelhos esfolados, vestido rasgado, não, não, não… Acho que o Zé estava dentro desse cemitério também. Hehehehehe.

    19/04/2010 às 16:03

    • Menina Misteriosa

      Fernando,

      Como assim? Que Zé? ;)

      Ó, essa coisa de final criativo é contigo… btw, gostei bastante das suas ideias para um final ‘alternativo’.

      23/04/2010 às 16:21

  10. kkkk, não adianta, as meninas da cidade sempre tem culpa no cartório…

    19/04/2010 às 18:34

    • Menina Misteriosa

      S.,
      Tadinhas, né? Tão puras! ;)

      23/04/2010 às 16:22

    • num é menina… kkk

      23/04/2010 às 21:26

  11. Anônima

    Tinha que ser o Zé

    19/04/2010 às 18:43

    • Menina Misteriosa

      2 X 0 pro Zé.
      Então, conta pra gente o que ele fez lá, conta?

      23/04/2010 às 20:28

  12. Oi querida, como está?
    Menino, gente com mentalidade contida é uma coisa né? kkkkkkkkkkkkk
    Eu estou bem sim querida, solteiro novamente, mas bem. A vida continua e eu tenho q continuar caminhando.
    Um bjo amiga
    :)

    19/04/2010 às 20:55

    • Menina Misteriosa

      Solteiro, Dil? Que aconteceu?
      Se quiser conversar, estou aqui.
      Fica bem!
      Um beijo

      23/04/2010 às 20:29

  13. Quem manda apertar no botão vermelho

    19/04/2010 às 21:00

    • Menina Misteriosa

      Paulo,
      Podia-se pensar em várias outras opções, né?

      23/04/2010 às 20:30

  14. Adoro quando leio histórias com personagens que parecem serem conhecidos/as meus.. é o caso de nossa heroína…

    Bjs!

    19/04/2010 às 21:22

    • Menina Misteriosa

      Eraldo,
      Conta sua história!

      23/04/2010 às 20:31

  15. o mais divertido no ser humano é que tudo pode, só não pode os outros saberem … rsss

    19/04/2010 às 23:32

    • Menina Misteriosa

      Monday,
      Se você entender o porquê disso, me explica?

      23/04/2010 às 20:31

  16. Ju

    Esse negócio de botão vermelho tá parecendo episódio de LOST!! hahahhaa
    MEDO!!! rsrs

    20/04/2010 às 00:38

    • Menina Misteriosa

      Ju,
      A sirene, com certeza, era de lá!

      23/04/2010 às 20:34

  17. Esse negócio de botão vermelho tá parecendo episódio de LOST! [2]

    Também achamos que era o Zé lá! E que tinha uma fonte no cemitério!

    20/04/2010 às 00:53

    • Menina Misteriosa

      Gustavão,

      A sirene, com certeza, era de lá!²

      3 X 0 pro Zé. Então, conta pra gente o que ele fez, conta? ²

      Fonte? Essa, só o Zé viu!

      23/04/2010 às 20:37

  18. Meninos machistas, sô! rsrs

    Beijos

    20/04/2010 às 02:08

    • Menina Misteriosa

      Alline,
      Uma menina tão boazinha… tsc, tsc…
      Beijo!

      23/04/2010 às 20:38

  19. Uia, que conto delicioso! =)

    Menina, promete que manda mais, desses, promete?

    Ai, ai…vivo de orgulho dessa mulher talentosa! Bato palmas, assobio, sou tiete, mesmo!

    Beijo, beijo.

    Love.

    ℓυηα

    20/04/2010 às 11:04

    • Menina Misteriosa

      Luna,
      Tu sempre me incentivando…
      Hum… gostou do estilo, é?
      Tks!
      Beijo

      23/04/2010 às 20:39

  20. J.R

    Coisas de cidade do interior né?

    Imaginei todas as cenas. Daria um CURTA bem legal!

    :)

    Vamos rodar???

    20/04/2010 às 12:26

    • Menina Misteriosa

      J.R.,
      Gostei da ideia.
      =)

      23/04/2010 às 20:40

  21. Me pareceu bem real essa postagem, com algumas pitadas de drama.
    Estou certo?
    Beijos

    Gostei

    20/04/2010 às 23:37

    • Menina Misteriosa

      Daniel,
      Você está, sempre, certo!
      Só preciso aprender a aumentar as pitadas de drama… ;)
      Beijo!

      23/04/2010 às 20:40

  22. Hua, kkk, ha, ha, que coisa sem noção, pois quem instala uma sirene no cemitério (tem gente que que devido as casos de confundirem o estado de uma doença que abaixa todos os estados fisiologicos em morte colocaram alarmes e auto falantes nos mausoleus)?!

    Fique com Deus, menina Misteriosa.
    Um abraço.

    27/04/2010 às 00:29

    • Menina Misteriosa

      Daniel,
      Acho que muita gente já tinha ficado ‘presa’ por lá…

      27/04/2010 às 01:32

  23. Ah linda…

    a vida nos prega peças e esgarça peças

    e somos nós mal encaixadas nesses encaixes.

    E somos nós tão perdidas quanto encontradas nas nossas tentativas.

    O que ficou, é porque não tinha fôlego para nós.

    O que vier, ou tem ou sai fora.

    Não mude-se mesmo porque alguém não te compreende.

    Tenho um segredo pra ti: nem a gente se compreende inteira, que dirá os outros…

    beijos e, é claro, o texto é lindo.

    27/04/2010 às 01:16

    • Menina Misteriosa

      Ana,
      Suas palavras são muito importantes para mim. Em vários sentidos. E você sabe disso, né?
      Obrigada!
      Mas, quando eu crescer, quero escrever finais surpreendentes como os dos textos do nosso amigo @colunafantasma… ou, quem sabe, fazer as palavras bailarem sob minha regência, como você…
      Beijo!

      27/04/2010 às 01:34

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