Arquivo para maio, 2010

Cristais

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Surgiu a vontade de tirá-los dali, jogar as caixas fora. Deixá-los expostos.
Guardar para quê? Por que não sentir o toque aveludado nos lábios? Por que não saborear cada bebida, de forma diferente? Por que não?
Porque são frágeis; algumas pessoas não serão cuidadosas e eles se quebrarão, você os perderá; diziam.
Ao deixá-los encaixotados, se vive mais, melhor? Não. De que adianta, então, tê-los, ali, ao alcance das mãos e não poder usufruir?

Esse é o meu momento. É o nosso agora.

…e a pretensa vulnerabilidade dos sentimentos [retraídos] está, enfim, livre…

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Toda errada

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Hoje, queria que meus roxos falassem. Que me ajudassem a preencher lacunas. A completar sensações. Hoje, queria respostas.

Fechava os olhos e cenas soltas vinham em pedaços. Eu ria, de nervoso. ‘Eu fiz isso? … não, não posso ter feito… eu fiz!’. Vergonha, dúvida, confusão, culpa… nem sei, ao certo… ainda está tudo misturado, aqui dentro.

Por isso eu estava tão inquieta, agitada.

Eu sei que aconteceu. Não fujo. Assumo: fui eu. Só falta o ‘como’. Um emaranhado de flashes me confunde. Falta a sequência, certas partes não se encaixam. Ficaram sem continuação…

Como posso não saber? Extrapolei? Despiroquei? Me perdi? Te machuquei? Tudo junto? Ahhhhh…. eu não sei!

Provei meu próprio veneno. Paguei a língua, com juros e correção. Aliás, é disso que eu preciso: correção. Sim, fiquei e ainda estou desconcertada. Admito, errei.

Só queria saber se… ah, você sabe. Eu não sei. Você não vai falar tudo. E meu corpo se calou.

Só hoje entendo como essa sensação, sendo verdadeira, é ruim. Desgastante. Antes, eu não sabia.

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e-trapèze

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Algo me atrai [em] [para] você.

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As palavras. Sozinhas, desconexas. Com o tempo, o contexto. O todo. Entretida, não percebi as entrelinhas. Começo errado? E isso importa? Aliás, o que importa?

Depois, as letras … ah … eu me deixo levar … mas, não! … o ponto não é esse! Não é um livro, uma música, apenas um desejo. Nada disso define. Nada explica. É mais!

Vontade diferente. [arrebatadora]
Há tanto bem-querer. Sem porquês, sem porquê. Simplesmente é e pronto. Aconteceu. Sem que você fizesse força para me agradar e sem que eu percebesse.
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Cumplicidade. Lealdade. É disso que gosto.

…………………………………………………………………………………..Tudo e nada, compartilhados.
………………………………………………………………………………………………………..Sem máscaras,
………………………………………………………………………………………………..sem meias verdades,
………………………………………………………………………………………………….sem meias palavras.
……………………………………………………………………………………………..Sem julgar. Sem culpas.

Quero te ouvir. Ver o seu lado machucado. Não, não vou te curar. Você não precisa. Quero que saiba da beleza que está aí. Sim, todos falam. Mas você, no fundo, não sabe.

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…………….Gosto do que não é visto. Gosto do certo, na hora errada. Do errado, na hora certa.

…………………………………Quero o ‘tudo errado’ e, mesmo assim, sentir que é certo.

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…………….Gosto das madrugadas, também de dia.
………………………………………………………………………………..Quero ser presença, na sua ausência.
…………………………………………………………………………………………….Quero ser o que não tem.
……………………………………………………………………………………………Quero dar o que não pede.
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Posso te proteger? Eu sei, eu sei que você não precisa. Mas tem algo… eu sinto! Perde o medo, perde? Quero te mostrar o cuidado, a atenção, o carinho; sem querer recompensa. Sem querer seu corpo em troca.

…………….Nem todo interesse é sensual, carnal, romântico ou platônico.

Não é por isso que te busco.

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Quero sua verdade rasgada. A que você esconde. A que não sabe que existe. Quero sua forma crua, nua, despudorada. E isso não significa que eu queira te ter.

Aqui, não cabe cama, nem amor ou desejo lascivos. Eles, agora, nesse caso, não importam.

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…………….Não quero entender. E isso, vindo de mim, é totalmente inusitado, acredite!

Quero ver, quero ir. Além.

…………….Vício? Não sei. Querer, eu quero. Mas não preciso. E não me engano: esse querer é meu.

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Ao escrever, misturei sentimentos e pessoas. Ou eles, sozinhos, quiseram entrar e eu deixei.
Comecei pensando em você… mas me perdi. E foi bom.
Sendo você quem é, vai entender.
Juntei sensações, apenas aqui. Fora, sei bem qual é de quem.

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Vitoriosa – Ivan Lins


… o Eagle que compramos juntos … [parte 2]

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… o Eagle que compramos juntos … [parte 1]

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[Sua carreira estava decolando. Mais um CD. Reconhecimentos. Contratos. Contatos.]

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– Gravei a nossa música.

– Eu sei! Está tocando nas rádios daqui! Parabéns!

– Já ouviu? Putz, queria te fazer uma surpresa…

– E fez! … não, não se preocupe… eu gostei!

– Vou ficar alguns dias por aí, tenho shows em cidades próximas… Posso me esconder lá na sua casa, passar uns dias contigo?

– Claro!

[nós dois, saudosos…]

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– Você ainda tem aquelas fotos da gente cantando, nos fundos da casa dos seus pais?

– Devo ter sim. Por quê?

– Você acreditava em mim, quando eu mesmo duvidava… tanta coisa boa surgiu ali… quero colocá-las no estúdio… faz uma cópia pra mim? E podemos cantar lá, de novo, como fazíamos?

– Sim, faço sim. Claro!

– Sinto saudades.

[Você queria comemorar, da nossa maneira.]

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– E as aulas? Não te ensinei nada, né?

– Ensinou sim. Só que não foi a tocar violão.

– Vamos retomar de onde paramos?

– […]

– … ah… mas, pelo menos, vamos no estúdio; mantive a casa, preservei o desenho… Ainda tem ‘aquele’ violão?

– Lógico! Você sabe…

– Ótimo! Quero te mostrar uma música nova que estou compondo. Falta seu toque… preciso de você… ‘daquele’ jeito… Topa?

[…]

– Só um pouquinho… deixa? […] Ok, nem tudo… […] Sim, prometo.

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[Foi quando você tocou sua música inédita, pra mim, no Eagle que compramos juntos… nosso ritual, vivo… as palavras ainda se completavam, naturalmente… a sintonia ainda pulsava, forte… mais uma vez, finalizamos a letra, juntos… e o desenho, você o refez, em miniatura… sentimentos vieram à tona… tudo o que vivemos retratado em suas… Não, minhas não… em nossas letras… por que não aceita que são nossas? … Sim, também sinto saudades.]

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………………………………………………………… ♪♫♪

“My gift is my song and this one’s for you
And you can tell everybody this is your song
It may be quite simple but now that it’s done
I hope you don’t mind
I hope you don’t mind that I put down in words

How wonderful life is now you’re in the world”

………………………………………………………… ♪♫♪

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[Nós sabemos. Isso me basta. Você não precisa me provar nada. Mas sinto vontade de gritar, de te dedicar… queria que soubesse… Mas eu sei. E gosto da nossa história, assim, só nossa. Combinado! Mas quero deixar esse projeto em suas mãos… cuida pra mim?]

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………………………Lembra-se daquela palheta? Sim. Não quero te provocar, nem confundir sua cabeça, juro… mas você precisa saber que ela, por ser sua, é meu amuleto. ……..Levo-a comigo em todo show…

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Your Song – Elton Jonh

… o Eagle que compramos juntos … [parte 1]

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Eu procurava um professor de violão. Morávamos perto, horários coincidiram. Em pouco tempo, 1 hora não era mais suficiente. Começamos a passar o dia inteiro juntos. No seu quarto, sem o mundo.

………………………Longas conversas, muita música, delírios…
…………………………………………………………………………………………………………. …possibilidades.

Amava ler seus rascunhos, suas ideias arranhadas. Nossos pensamentos soltos se encaixavam, sem esforço.

………………………………………………………………………………………………………………[num impulso,
…………………………………………………………………………………………………..enquanto eu brincava com suas palavras,
…………………………………………………………………………………………………………………………….você começou o desenho;
…………………………………………………………………………………………………………………………………..ali mesmo, na parede]

Eu relia suas anotações e completava com algo meu. Você sabia. Eu sentia. Nos olhávamos e a inspiração simplesmente surgia. Eu sabia. Você sentia.

Dividíamos tudo. Sem meias palavras, sem máscaras.

……………………………..Éramos o combustível um do outro. Você, meu professor. Eu, sua musa.

[nossos olhares, cúmplices, sorriam]

Por pouco, eu não larguei tudo e fui viver esse sonho contigo. Mas ele era seu, só seu. O meu era diferente. E nos separamos. Fisicamente, apenas. Por muito tempo, o contato persistiu, constante.

[continuamos, juntos]

Um dia, sem explicação, a intensidade foi diminuindo. Os dois precisavam disso, para seguir em frente…

[…]

…alguns anos depois, ouço nossa música no rádio. E me emociono. Eu ainda sabia a letra, de cor.

[…]

…hoje, meu celular tocou e era você…

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[continua]

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Má língua dos milagres

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Era comparada a um morteiro. Cotovelos cascudos e foveiros denunciavam que via a vida pela janela. Sua língua trabalhava com presteza. Todo o mal a ela era associado. Ouvia, repassava; deduzia, inventava; induzia, incitava.

Por conta de suas delações, ele estava de castigo. Sua mãe trancou as roupas num dos cômodos e o fez vestir uma saia, imaginando que a vergonha o impediria de sair. Enganou-se. Ele amarrou a saia no meio das pernas e fugiu. Era a final do campeonato de sinuca.

A fofoqueira, de plantão, observou tudo, alertou a mãe e foi com ela, alfinetando-a, até o único bar do vilarejo.

O jogo estava prestes a começar. Posicionou-se e, quando ia dar a primeira tacada, viu seus amigos afastarem-se da mesa, espantados. Antes que pudesse imaginar o porquê, sentiu a primeira ‘guarda-chuvada’. Com o impulso, o taco acertou violentamente uma das bolas que ricocheteou e quebrou o ‘valioso’ troféu, relíquia sentimental do pequeno povoado.

Tacos empunhados, partiram para cima da bisbilhoteira e a mataram à tacadas. Arrancaram seus olhos e, no lugar, colocaram as bolas preta e branca ocupando as cavidades oculares. Retalharam-lhe a língua, em retaliação.

Enterraram-na em praça pública. Em volta de seu sepulcro, a cidade, que hoje a homenageia, foi erguida.

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