Nas ruínas, sentimentos eram as mercadorias

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O Sandi lançou o desafio e indicou, para dar início à aventura, ninguém menos que o talentoso e perverso Gustavo; que me ‘passou o bastão’. Eu, claro, topei.

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Capítulo II – Nas ruínas, sentimentos eram as mercadorias

E assim, eu cresci. Cercado pelo mistério das construções de nosso bairro e da minha procedência. Seguindo o exemplo de meu pai e observando a atitude sécia de minha mãe, aprendi a negociar, manter as aparências e usar minhas virtudes para conseguir o que queria.

Recebíamos poucas visitas. Apenas os amigos da igreja faziam companhia a ela, em tardes indistintas e lânguidas. Ela nunca me ensinou a rezar. Mas a pontualidade da fé sempre me instigou. E cintilava meu dia, já que, durante a presença de estranhos, eu poderia parar de estudar e ainda ganhava alguns trocados, desde que fosse, imediatamente, à venda, gastá-los.

Meu pai era escasso em atributos físicos. Baixinho, franzino. Seus cabelos, bem tratados, brilhavam, mas havia indícios de que não durariam. Óculos fundos. A compensação vinha do sobrenome, da educação, da inteligência e, claro, da confortável situação financeira. Eu admirava seu senso de humor apurado, seu gosto pela leitura. O oposto de minha mãe.

Um dia, questionei-o acerca das viagens, e aprendi sobre algo que ele estava prestes a perder. ‘Um homem precisa se sentir livre’, dizia ele. E ele sempre o foi, até conhecê-la.

Acostumei-me a receber o que eu achava ser amor, como recompensa. Aos domingos, após o almoço, sentava em seu colo e relatava minha semana, estudos, descobertas e, principalmente, as atividades religiosas de minha mãe.

Ele, logo depois, confrontava-a. Eu ainda não entendia, mas a retribuição me confortava.

Ele sempre cedia. Ela, manhosa, conduzia-o com maestria. E ele sabia. Inclusive que, para não perdê-la, sustento e luxo não eram suficientes. Mais presença se fazia necessária. A frequência e a duração de suas viagens diminuíram. Bem como as preces vespertinas; porém, nenhuma das duas cessou.

A ambição de minha mãe gritava, exigindo que se precavesse. Preocupava-se não com meu bem estar e sim com seu próprio. Como o matrimônio estava fora de cogitação – vim a saber que meu pai já era casado – eu era, então, sua única esperança. Ela exigiu que ele me reconhecesse como filho lídimo, caso contrário, o abandonaria. Ele, então, o fez.

Fomos a um cartório de nome imponente, numa rua sem saída, de paralelepípedos. Lembro do cheiro de velho e da minha mãe dizendo que, por ser no dia do meu aniversário, não ganharia presentes. E esse me bastava: meu renascimento. Uma nova origem. A mim, agora, pouco importava a antiga. Eu conseguira um pai, na certidão.

Nesse instante, não só a nossa história – minha e de minha mãe – começou a mudar. A de meu pai, agora legítimo, também.

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O terceiro ficou por conta da Ana.

A sequência virá pelas mãos do Paulo, que indicará o próximo e, assim por diante… não percam!

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18 Respostas

  1. Pingback: Tweets that mention Nas ruínas, sentimentos eram as mercadorias « Menina Misteriosa -- Topsy.com

  2. Visitar você antes de dormir
    vai me fazer sonhar…
    Grata pela preciosa visita e pelo carinho!
    “As pessoas mais felizes não
    têm as melhores coisas.
    Elas sabem fazer o melhor das
    oportunidades que aparecem
    em seus caminhos.
    A felicidade aparece para
    aqueles que choram.
    Para aqueles que se machucam.
    Para aqueles que buscam
    e tentam sempre.”

    – Clarice Lispector-

    Beijinhos carinhosos pra você!!!
    Sônia Silvino’s Blogs
    Vários temas & um só coração!

    17/06/2010 às 23:35

    • Menina Misteriosa

      Ei, Sônia! Obrigada, beijo.

      18/06/2010 às 13:27

  3. final feliz… ou não!

    18/06/2010 às 00:50

    • Menina Misteriosa

      S.,
      Isso que é bacana, nesse tipo de desafio, a gente nunca sabe o rumo da história!
      Beijo

      18/06/2010 às 13:27

    • ah, saber o rumo das coisas nem sempre é legal…
      bjs

      22/06/2010 às 12:40

  4. Descobbri ontem o MiniContos Perversos… só ontem! No blog de um amigo querido.

    Quero as histórias, todas. Peguei a essência, espero ter chegado a tempo, mas vou atrás de vocês. OK? ;)

    Beeeeeeeijo!

    18/06/2010 às 02:00

  5. Alexandre

    Você vai publicar todos os capítulos aqui? Eu queria acompanhar.

    18/06/2010 às 20:56

    • Menina Misteriosa

      Ei, Alexandre!
      Acho que não. Mas você pode acompanhar todos, por aqui: http://umpontoeoutrapalavra.blogspot.com – toda semana, quarta-feira, um novo capítulo será publicado!
      Obrigada pela visita, volte mais vezes.
      =)

      21/06/2010 às 13:02

  6. Opa, que bacana esse projeto conjunto!

    Vou ler os demais, para acompanhar, combinado?

    Beijocas, lindona!

    ℓυηα

    20/06/2010 às 20:28

    • Menina Misteriosa

      Oh, irmã… obrigada… você, sempre me apoiando!
      Combinado! Espero que goste! ;)
      Love

      21/06/2010 às 13:03

  7. Super!
    “Conto-a-muitas mãos” é uma delícia! O suspense é garantido e a boa escrita também.

    Esse seu conto me lembrou de um menino, finalmente reconhecido pelo pai, mas também reconhecido pelos irmãos, filhos da primeira mulher do pai. Tocante.

    beijos

    21/06/2010 às 15:24

    • Menina Misteriosa

      Mirian,
      Concordo… eu estou adorando!
      Beijo!

      21/06/2010 às 19:01

  8. Tantas facetas, sempre escondidas em meio ao talento natural, à maestria e à inteligência. Se eu disser que me surpreendes a cada dia, estarei mentindo: sempre soube do teu imenso potencial.

    Ainda editoro um livro teu.

    Beijos, flor querida.

    Miss

    22/06/2010 às 17:42

    • Menina Misteriosa

      Miss,
      Como uma amiga-irmã, como você, tô feita! =)
      Obrigada por sempre acreditar, lindona!
      Love

      [e ainda tô com saudades, viu?]

      22/06/2010 às 20:08

  9. Interessante este conto feito a várias mãos…

    Fique com Deus, senhorita Menina Misteriosa.
    Um abraço.

    29/06/2010 às 09:20

    • Menina Misteriosa

      E fica cada vez melhor, Daniel!
      Beijo

      29/06/2010 às 13:58

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