Arquivo para setembro, 2010

Alma*

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Brincava com a taça de vinho, ainda cheia; com o dedo, percorria o fino cristal da borda enquanto andava, na casa que um dia foi sua, perdida entre parentes, amigos e amores.

Ela estava ali. Mas não sentia. Nem a presença, nem os afagos que recebia, nem os sorrisos. Não por serem estranhos, mas demasiadamente conhecidos. Seus olhos estavam sem vida, atraídos pelo nada. Passava de cômodo em cômodo tentando melhorar a sensação de não pertencer. Em todos os cantos, via seu reflexo e, em meio a conversas animadas, segredos, confissões e rostos convidativos e acolhedores, ainda assim, não se reconhecia. Não se sentia parte da cena, tinha apenas uma percepção apática, sem consciência.

Cansou desse equilíbrio aparente de vontades vãs e foi pro quintal gramado, com sua tatuagem recente, sua pose de menininha no vestido de festa e seus sapatinhos na mão. Andou sem rumo, sem pressa, sem pensamento certo, sem barulho, sem companhia; mas não sozinha. Volta e meia, alguém aparecia e a chamava para entrar. Ela respondia com um sorriso.

Quando percebeu, estava deitada na grama, sem se preocupar com a roupa, com as opiniões e julgamentos, com a pompa, com a suposta sandice. A respiração abafada deu lugar a um longo e desvencilhador suspiro. As sensações de estar presente e se reconhecer, agora, tornavam-na real. Existia algo, talvez, pela ausência de todas as outras coisas. E, ao pressentir o sentir, a festa foi lá pra fora.

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*ganhei o título, de presente! obrigada!

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E ela ainda diz que a doida sou eu!

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Brincavam de pique-esconde no recreio. Ele conhecia bem o colégio, judiava e a deixava desorientadinha tentando achá-lo. Só aparecia depois de se divertir bastante. Mas, na visão dela, ele sempre surgia como o herói que a ‘salvava’. E deu nisso: a imaginação mandou, ela se apaixonou e o que era brincadeira virou obsessão.

Para vigiá-lo, por mais que quisesse algo diferente, fez o mesmo curso que ele, na mesma faculdade. Depois, sugeriu abrirem um negócio juntos e, assim, trabalham e vivem até hoje, morando, não juntos, mas bem perto.

Não que essa proximidade toda adiantasse. Ele sempre estava acompanhado; uma mulher atrás da outra, quando não as tinha ao mesmo tempo.

A cada nova namorada, ela surtava. Ficava de tocaia, imaginando eles se tocando, se beijando. Gemia e se torturava com as cenas – do que poderia estar acontecendo – que passavam à sua frente, como um filme.

Ela não namorava, não tinha vida própria. Persegui-lo consumia muito tempo. Depois das (ou durante as) espreitadas bem sucedidas, pagava pelo sexo e se esbaldava ao pensar nele, sozinho. Não é nefasta, nem feia, nem mal amada. Recusava pretendentes, porque só ele lhe interessava.

Um dia, ela resolveu ‘experimentar’ o dito. Convidou-o pra jantar, na casa dela. Ele nunca foi difícil. E, durante esse tempo todo, ela sabia que seria moleza. Mão nisso, aquilo na mão, pernas, posições trocadas. Nada. Nem as variações, nem o básico a agradaram. Tentou bater, apanhar e tudo mais. Imagine o que quiser; eles tentaram. E nada.

Achou que estava curada. Começou outro relacionamento e nada. E mais outro. E outro. Tentou  até com as namoradas e affairs dele. E nada. Nem uma gozadinha sequer.

Mas no dia em que conseguiu desviar a atenção dele, que estava voltada para uma vagabunda da mesa ao lado, gozou ali mesmo, no bar.

A excitação vinha do controle, da perseguição. E não de tê-lo ou estar com ele. Ele não podia ser de ninguém. Nem dela. Gostava do sofrimento, do amor platônico, do inatingível. E dos homens que se submetiam à loucura e topavam acompanhá-la nesse jogo doentio.

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Será?

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Como ele viajou a trabalho, ela iria quase metade do caminho sozinha, até uma cidade de raízes familiares e de muitos amigos, onde o encontraria e, dali, continuariam a viagem, juntos.

Até chegar lá, ela não precisaria pensar em voz alta ou se preocupar se o fizesse. Ouviria apenas a estrada, seus desejos e instintos, o vento e as músicas especialmente selecionadas. Os nomes, não tão randômicos assim, no visor, seriam sua companhia.

A longa estrada que se abria à frente clareava sua mente, acalmava suas aflições. Entre as idéias que a invadiam, a de que, em breve, ela teria uma belezoca como a que acabou de passar zunindo e, então, não seria mais uma espectadora, poderia se misturar à paisagem. Talvez corresse mais, mas, ainda assim, numa velocidade pequena se comparada à sede e fome do querer. Pensou também no fantasma querido que reapareceu. Em política. No trabalho. Nas relações vivas. Em como as prioridades mudam. No estúdio, na música dedicada. No alto do alto do morro mais alto. Nas decisões das últimas semanas. No que ainda precisava definir. Nas novas pessoas que entraram em sua vida. No curso que começou. No pedido que aceitou. No anel que recusou. Se voltaria a dar aulas ou não. Na fazenda… hum… droga!… lembrou-se que esqueceu de levar o livro do ‘diabo da garrafa’… lá se foi a aposta! Pensou também nas brigas que a cercam e no seu ‘papel’ de mediadora. Nas ligações e mensagens. Na grande amiga que está indo ver; na de Londres e na da Itália, que ela visitará no ano que vem. Até que a música mudou. Ela se lembrou de alguém e vontades, que ela não sabia que existiam, gritaram. Entre coincidências e associações sem nexo, logo, vários ‘alguéns’ começaram a dançar dentro da sua cabeça, sem disputar atenção.

Em meio a saudades e planos, brincou de futuro sem perceber. Sorriu, bem gostoso. Pelos desejos que, um dia, lançou ao vento e que, hoje, ele trazia de volta. Pela bagunça do cabelo revoado que quase atrapalhava sua visão. Por sentir a lufada forte no rosto.

Quase chegando, parou num lugar novo que sempre quis conhecer. Tomou um café e ficou hipnotizada com o movimento das luzes, do céu e dos carros. Já era noite. A primeira parte estava perto do fim e, só agora, ela se deu conta de que, entre as mil coisas que devaneou e filosofou, só não pensou em quem a esperava; não sentiu a saudade que ‘deveria’; ainda não tinham uma música; e que não queria chegar…

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