Será?

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Como ele viajou a trabalho, ela iria quase metade do caminho sozinha, até uma cidade de raízes familiares e de muitos amigos, onde o encontraria e, dali, continuariam a viagem, juntos.

Até chegar lá, ela não precisaria pensar em voz alta ou se preocupar se o fizesse. Ouviria apenas a estrada, seus desejos e instintos, o vento e as músicas especialmente selecionadas. Os nomes, não tão randômicos assim, no visor, seriam sua companhia.

A longa estrada que se abria à frente clareava sua mente, acalmava suas aflições. Entre as idéias que a invadiam, a de que, em breve, ela teria uma belezoca como a que acabou de passar zunindo e, então, não seria mais uma espectadora, poderia se misturar à paisagem. Talvez corresse mais, mas, ainda assim, numa velocidade pequena se comparada à sede e fome do querer. Pensou também no fantasma querido que reapareceu. Em política. No trabalho. Nas relações vivas. Em como as prioridades mudam. No estúdio, na música dedicada. No alto do alto do morro mais alto. Nas decisões das últimas semanas. No que ainda precisava definir. Nas novas pessoas que entraram em sua vida. No curso que começou. No pedido que aceitou. No anel que recusou. Se voltaria a dar aulas ou não. Na fazenda… hum… droga!… lembrou-se que esqueceu de levar o livro do ‘diabo da garrafa’… lá se foi a aposta! Pensou também nas brigas que a cercam e no seu ‘papel’ de mediadora. Nas ligações e mensagens. Na grande amiga que está indo ver; na de Londres e na da Itália, que ela visitará no ano que vem. Até que a música mudou. Ela se lembrou de alguém e vontades, que ela não sabia que existiam, gritaram. Entre coincidências e associações sem nexo, logo, vários ‘alguéns’ começaram a dançar dentro da sua cabeça, sem disputar atenção.

Em meio a saudades e planos, brincou de futuro sem perceber. Sorriu, bem gostoso. Pelos desejos que, um dia, lançou ao vento e que, hoje, ele trazia de volta. Pela bagunça do cabelo revoado que quase atrapalhava sua visão. Por sentir a lufada forte no rosto.

Quase chegando, parou num lugar novo que sempre quis conhecer. Tomou um café e ficou hipnotizada com o movimento das luzes, do céu e dos carros. Já era noite. A primeira parte estava perto do fim e, só agora, ela se deu conta de que, entre as mil coisas que devaneou e filosofou, só não pensou em quem a esperava; não sentiu a saudade que ‘deveria’; ainda não tinham uma música; e que não queria chegar…

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29 Respostas

  1. A paixão é como a heroína. Depois da primeira dose, o viciado só quer saber de voltar àquela sensação de paraíso que teve na primeira vez. E esse paraíso fica sempre a um passo a mais de onde se chega. Essa droga vai te roendo por dentro, numa fome sem fim.

    Beijoca!

    08/09/2010 às 17:45

    • Menina Misteriosa

      E deixa, marcado, o gosto de quero mais. Será que não existe overdose que dê jeito?
      Beijo, Paulo!

      20/09/2010 às 13:14

  2. Cheiro de vida este post…

    Mas um pouco de caos é necessário para nós revermos as nossas opiniões…

    Fique com Deus, senhorita Menina Misteriosa.
    Um abraço.

    08/09/2010 às 18:28

    • Menina Misteriosa

      Daniel,
      Ali há muito, muito caos.

      20/09/2010 às 13:14

  3. Eu entendo a força do vento beijando o teu parabrisa. Bom é quando a gente lê, estando de alguma forma entre uma mesma paisagem.
    Se eu tivesse que definir o desencanto, seria tirar a “estrada” de um “beat”.
    Chegar pra quê? Você sempre esteve…
    Te beijo.

    08/09/2010 às 19:24

    • Menina Misteriosa

      Moska,
      A paisagem é essa mesmo, a que você sabe. Você sente, não sente?
      Mas se estive… não sei… mais um questionamento.
      Beijo

      20/09/2010 às 13:16

  4. Parece que a gente tenta se cercar de “certezas” porque sabe que se vacilar por um instante, aquilo que não é assim tão certo vem e se instala…ai, ai.

    Beijos, love!

    ℓυηα

    08/09/2010 às 20:43

    • Menina Misteriosa

      Perfeito, Irmãzinha! Perfeito!
      Love

      20/09/2010 às 13:16

  5. Ah, eu adoro ter momentos de devaneios parecidos ao do texto, onde faço reflexões sobre as situações e pessoas que andam passando pela minha vida!

    08/09/2010 às 21:21

    • Menina Misteriosa

      Desabafando,
      eu também. Era o que eu precisava. Ou, pelo menos, uma das coisas.
      Beijo

      20/09/2010 às 13:21

  6. Passando para desejar uma otima semana!

    09/09/2010 às 08:46

    • Menina Misteriosa

      Obrigada, Madame!
      Boa semana pra ti também!

      20/09/2010 às 13:28

  7. Pingback: Tweets that mention Será? « -- Topsy.com

  8. é quando nos vemos numa situação incomum que percebemos o que realmente queremos.
    a rotina pode nos deixar cegos!!

    beeijo

    09/09/2010 às 10:50

    • Menina Misteriosa

      Isso mesmo, Shaa. É bom, mas assusta, confesso.
      Beijo!

      20/09/2010 às 13:29

  9. Ótimo texto.Melhor assim,devaneios diversos do que focar numa pessoa só.
    bjssss

    09/09/2010 às 14:20

    • Menina Misteriosa

      Paty, não digo que o ponto era ‘focar’, mas, pelo menos, se lembrar de tal pessoa.
      Ah… vai entender, né? rs
      Beijo!

      20/09/2010 às 13:31

  10. percebeu depois, quase tarde, q tinha coisas mais interessantes pra pensar e desejar… ainda há tempo!
    bjs

    e por aqui está tudo ÓTIMO…

    09/09/2010 às 15:57

    • sim, pq tudo o q pensou e desejou era tão bom q esqueceu do resto, né? rs

      09/09/2010 às 15:59

    • Menina Misteriosa

      Ah, S., já nem há tanta certeza sobre isso. Confuso, S., confuso! ;)
      Fico feliz em saber que, por aí, está tudo bem!
      Beijo!

      20/09/2010 às 13:32

    • essa confusão é normal e saudável, acredite.
      bjs

      26/09/2010 às 21:51

  11. sei bem como é isso…

    14/09/2010 às 19:40

    • Menina Misteriosa

      Doideira completa, né, Mayume? No limiar, talvez!
      Adorei sua visita e seu blog…
      Beijo

      20/09/2010 às 13:33

  12. Miss

    Florzinha, obrigada pelo afago lá no blog, viu? É bom pq teus comentários só vêm “no atacado”! ;) Adoooro!

    Love!

    Miss

    15/09/2010 às 10:08

    • Menina Misteriosa

      Miss,
      Não tem nada que agradecer… e, sobre minha demora [atacada], já sabe, né? ;)
      Love!

      20/09/2010 às 13:34

  13. Será que pintou o sentimento de culpa por ter tido uma viagem tão boa, com pensamentos tào bons, sem a pessoa? Afinal, é tão bom ter um espaço só nosso, né não?

    16/09/2010 às 19:40

    • Menina Misteriosa

      Mirian,
      Por não estar com a pessoa não. Mas por não incluí-la em planos, pensamentos, risadas e desejos, talvez. Por não lembrar.
      Sobre o nosso espaço, é mais que bom. É ótimo e fundamental.
      Beijo!

      20/09/2010 às 13:36

  14. Ju

    …e no fundo, eu sabia que você já sabia a resposta… “Será?” =P

    Beijos

    26/09/2010 às 01:23

    • Menina Misteriosa

      Acho que não. E essa coisa de ‘no fundo’ só vale quando eu uso, tá? =P
      Beijo!

      30/09/2010 às 19:03

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