Alma*

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Brincava com a taça de vinho, ainda cheia; com o dedo, percorria o fino cristal da borda enquanto andava, na casa que um dia foi sua, perdida entre parentes, amigos e amores.

Ela estava ali. Mas não sentia. Nem a presença, nem os afagos que recebia, nem os sorrisos. Não por serem estranhos, mas demasiadamente conhecidos. Seus olhos estavam sem vida, atraídos pelo nada. Passava de cômodo em cômodo tentando melhorar a sensação de não pertencer. Em todos os cantos, via seu reflexo e, em meio a conversas animadas, segredos, confissões e rostos convidativos e acolhedores, ainda assim, não se reconhecia. Não se sentia parte da cena, tinha apenas uma percepção apática, sem consciência.

Cansou desse equilíbrio aparente de vontades vãs e foi pro quintal gramado, com sua tatuagem recente, sua pose de menininha no vestido de festa e seus sapatinhos na mão. Andou sem rumo, sem pressa, sem pensamento certo, sem barulho, sem companhia; mas não sozinha. Volta e meia, alguém aparecia e a chamava para entrar. Ela respondia com um sorriso.

Quando percebeu, estava deitada na grama, sem se preocupar com a roupa, com as opiniões e julgamentos, com a pompa, com a suposta sandice. A respiração abafada deu lugar a um longo e desvencilhador suspiro. As sensações de estar presente e se reconhecer, agora, tornavam-na real. Existia algo, talvez, pela ausência de todas as outras coisas. E, ao pressentir o sentir, a festa foi lá pra fora.

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*ganhei o título, de presente! obrigada!

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43 Respostas

  1. Tinha alguma música tocando, não? Antes, durante ou depois da “festa”. Aquela canção que só a gente ouve. Que fala tão e tanto… (bonita a imagem da menina caminhando descalça na grama…)
    Te beijo!

    27/09/2010 às 13:02

    • Menina Misteriosa

      Moska, tinha sim. Duas!
      Beijo

      17/10/2010 às 22:04

  2. Miss

    Ela percebera que havia mudado. E agora distraía-se, a observar traços da sua velha alma empoeirada, que haviam sido deixados em cada canto daquele lugar que um dia fôra seu.

    Delícia de texto, como sempre.

    Beijos, flor.

    Love.

    27/09/2010 às 13:03

    • Menina Misteriosa

      Miss,
      você, como ninguém, entende! Love!

      17/10/2010 às 22:05

  3. Sempre com o mistério no ar. #adoro

    bjos ú&e, =***

    27/09/2010 às 13:03

    • Menina Misteriosa

      U&E,
      Só pessoas sensíveis como você o captam!
      Beijo

      17/10/2010 às 22:06

  4. Seus textos ao mesmo tempo que são descritos com tanta suavidade,são intensos e quando não há perversidade,há mistério.Adorei.bjsss

    27/09/2010 às 13:36

    • Menina Misteriosa

      Paty,
      Ainda bem que não se assusta com a mistura de perversão e mistério!
      Obrigada! beijo!

      17/10/2010 às 22:07

  5. Lhe

    “Chorando bem baixinho, bem baixinho, baby
    Pra nem eu nem Deus ouvir
    Fazendo festinha em mim mesmo
    Como um neném, até dormir” Cazuza
    Provocação com amor.

    27/09/2010 às 13:51

    • Menina Misteriosa

      ‘Lhe’… gostei!
      Essa música não é só uma provocação…
      … é mais, bem mais!
      Um beijo!

      17/10/2010 às 22:08

  6. Como assim ganhou o título?

    Mas as vezes evoluimos e deixamos que a nossa casca anterior ainda impeça que voemos além…

    Fique com Deus, senhorita Menina Misteriosa.
    Um abraço.

    27/09/2010 às 15:24

    • Menina Misteriosa

      Daniel… e, às vezes, é preciso coragem para quebrar essa casca!
      Beijo!

      17/10/2010 às 22:09

  7. Jorge

    1) De fora do lado de dentro o cenário ganha a personagem que ganha a cena que reflete no brilho lúdico dos cristais: espelhos ou taças? – imagens de Alma.

    2) * de nada.

    27/09/2010 às 15:29

    • Menina Misteriosa

      Jorge,
      a emoção ganhou! =)
      Beijo

      17/10/2010 às 22:10

  8. Uma delicia caminhar junto, olhar o que ela mal via, ouvir o eco das vozes por fora e sentir o reencontro com ela mesma. Uma delícia!

    beijinhos

    27/09/2010 às 16:11

    • Menina Misteriosa

      Mirian,
      pela sua descrição, é como se estivesse lá!
      beijo!

      17/10/2010 às 22:11

  9. Acho que ela procurava um tempo-espaço que só o quintal gramado conseguiu proporcionar. Que bom que ele, o tempo-espaço, estava ali!

    Beijos!

    Love!

    ℓυηα

    27/09/2010 às 19:16

    • Menina Misteriosa

      Luna,
      só ele, o tempo-espaço, salva quando a solidão cercada de gente nos pega de surpresa! =)
      Beijo!

      17/10/2010 às 22:12

  10. Pode ter dado uma coceirinha, mas esse contato tira a energia ruim não necessária. Restabelece. Cura.

    Beeeeeeijo!

    28/09/2010 às 00:43

    • Menina Misteriosa

      Alline,
      Ri alto sobre a coceirinha por deitar na grama!
      Só você mesmo… =)
      Mas sim, o resultado valeu a pena!
      Beijo!

      17/10/2010 às 22:15

  11. lindo!bravo!

    consegui imaginar as cenas, como num filme.

    me senti um pouco ela, sabe?

    28/09/2010 às 01:17

    • Menina Misteriosa

      Luna… sim, sei sim…
      … espero que consiga, como ela, descarregar um pouco a energia que prende…
      Beijo!

      17/10/2010 às 22:17

  12. É tão bom essa simplicidade de estar em paz consigo mesma independente das opiniões alheias.

    28/09/2010 às 09:06

    • Menina Misteriosa

      Desabafando,
      é algo libertador!
      Beijo

      17/10/2010 às 22:20

  13. cada um pertence a um cenário específico, e não adianta forçar as circunstâncias, isso acontece naturalmente.
    bjs

    28/09/2010 às 16:46

    • Menina Misteriosa

      S.,
      Pior é nos sentirmos perdidos em cenários aos quais ‘deveríamos’ pertencer… é algo confuso, mas necessário, às vezes…
      Beijo!

      17/10/2010 às 22:22

    • putz, isso é realmente chato.
      bjs

      22/10/2010 às 18:54

  14. Carlos Buendia

    Isso é muito bacana. Gostei muito de esta narração. :)

    29/09/2010 às 12:52

    • Menina Misteriosa

      Obrigada, Carlos!
      Seja bem-vindo e volte sempre!

      17/10/2010 às 22:22

  15. Belo post, Menina! Talvez todos nós precisemos de momentos de sandice como este. Momentos em que passamos a ser nós mesmos, independentes das críticas e censuras dos outros. Momentos de liberdade das imposições da sociedade, que tanto nos perseguem! Beijo!

    29/09/2010 às 12:58

    • Menina Misteriosa

      Sim, Alta!
      E é um momento de ‘loucura’ que não faz mal ao outro, é algo nosso!
      Beijo

      17/10/2010 às 22:28

  16. Deitar na grama e o céu azul olhar, ficar entre o limite da terra e do ar, sentir o breve da brisa, algum calor que vem da terra, as folhas verdes e lisas, esquecer o coração em guerra, a mente em total viagem, algum orvalho ainda existe? É o triste que cai dos olhos em festa por poetisa imagem.

    Grato pelo twitter, bjs Miro

    29/09/2010 às 19:32

    • Menina Misteriosa

      Miro,
      seu comentário é daqueles que superam o post!
      Obrigada pela visita!
      Gosto de te ler lá no twitter… beijo!

      17/10/2010 às 22:31

  17. Os cantos têm vozes
    cortinas, móveis,
    insistem lembrar de algo que já não é.

    Quer entender?
    Pergunte ao relógio.
    Ele já está cansado de ver o tempo passar
    No mesmo ciclo
    As mesmas horas
    Nunca iguais

    29/09/2010 às 19:41

    • Menina Misteriosa

      Paulo,
      você, de alguma forma, sabe, sente…
      beijo!

      17/10/2010 às 22:32

  18. Miss

    E só de saber que vc existe, meu dia tem mais cor.

    Obrigada por tudo. Sempre.

    Love.

    01/10/2010 às 22:14

    • Menina Misteriosa

      Oun… você é uma linda, Miss!
      Minha irmãzinha… Love!

      17/10/2010 às 22:34

  19. Concordo com a Patrícia, suave e perverso. Muito bom. Grande abraço.

    02/10/2010 às 05:50

    • Menina Misteriosa

      Obrigada, Fabrício! Bom ter você por aqui… beijo!

      17/10/2010 às 22:36

  20. Mas você ainda não responde como assim ganho o titulo menina de sonhos reais e inreais…

    Pois quem disse que amor não é real, bem como ele pode ser cada vez melhor (mesmo parecendo inreal?).

    Fique com Deus, senhorita Menina Misteriosa.
    Um abraço.

    14/10/2010 às 12:39

  21. Menina Misteriosa

    Daniel,
    Eu ganhei? ;)
    Beijo

    17/10/2010 às 22:36

  22. “Homo sum. Humani nihil a me alienum puto!”

    E seu texto, minha cara, é demasiadamente humano. Creio que a alma é essa coisa que brinca de existir. E a menina do texto brincou com o meu.

    Parabéns mesmo.

    besos
    @paraquenomes

    20/10/2010 às 19:28

    • Menina Misteriosa

      Sal,
      Alguns sentem essa humanidade exacerbada como inimiga. Eu, como aliada, amiga sábia!

      Obrigada!
      Bom te ver por aqui!

      Um beijo

      22/10/2010 às 10:20

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