Perdição

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Depois de brilhar na IV Semana de Contribuição do MCP (junto com minha amiga VampiraDea), o @Heru_sa nos presenteia com sua presença e talento. Seus textos sempre me dão a sensação de ‘baseado em fatos reais’. Se você ainda não se viu personagem nesse, tem mais aqui!

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Perder-se era algo que não acontecia, não com ela. Sempre fora muito segura, senhora de si, sabedora dos seus caminhos, mulher madura, com princípios, meios e fins.

Mas agora estava perdida, desnorteada, sem rumo, com seus princípios abalados, sentindo os próprios métodos inúteis, e de repente questionando suas finalidades.

Bem cedo na vida fizera os planos, sabia o que queria, a carreira, as amigas, os amigos, as baladas, os fins de semana na praia, os excessos de comida e bebida motivando as horas de suor na academia, o sexo variado com o escolhido da vez, sem compromisso, sem dor de cabeça, foi bom, ou não foi, tchau.

Mas agora…

Agora ela havia sido ignorada, e isso também não era algo que acontecesse com ela, muito menos ser ignorada por alguém que passava o dia ao alcance de seus pés, na mesa ao lado. Os princípios relativos ao ambiente de trabalho já estavam desconsiderados ao limite, ela estava na fase cinco ou seis de seu “know-how”, vestidos mais curtos, decotes mais profundos, abrir um armário ou buscar algo na impressora eram atos estudados, sedução explícita, mais que isso só tirando a roupa no escritório, a fase “diga claramente” fora de cogitação, precisava do emprego, e… nada?

Escolhera, mas não fora escolhida. Ele falava da mulher, das filhas, do fim de semana maravilhoso com a família, contava do cachorro e da ninhada de gatos, das flores que plantara e colhera, do vinho que bebera vendo um bom filme com… e lá vinha ele falar da mulher de novo, que saco, será que não me vê aqui.

Por um tempo ela não havia percebido, achou normal, o cara é mais velho, casado, bem casado, vai falar do quê? Então um dia a maldita planilha não saia do lugar, e pacientemente ele segurou sua mão sobre o “mouse”, mão quente, perfume gostoso, é assim que se faz, e o tempo suficiente para um “clic” a perturbou intensamente. Naquela noite acordou úmida, ofegante, arranhando o lençol, imaginando-se sob os dedos experientes que a haviam conduzido à tarde, um gozo intenso, rindo sozinha da malvadeza que seria seduzi-lo, modo escrúpulos “off”.

Logo se viu perdida, algo que não acontecia, não com ela.

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16 Respostas

  1. O @Heru_Sa escolheu muito bem esse conto pro blog na Menina Misteriosa. Tem muito daquela safadeza do acontece-não-acontece.

    04/11/2010 às 08:20

  2. Tailor made, meu caro Gustavo, tailor made.

    04/11/2010 às 09:48

  3. Pingback: Tweets that mention Perdição « Menina Misteriosa -- Topsy.com

  4. Homem que banca o indiferente (ou de fato o é) não é coisa de Deus.

    * Menina, amoura, vou lá conhecer o blog do Heru_sa.

    =**

    ℓυηα

    04/11/2010 às 13:45

  5. Eu acho bacana ler sobre almas que sentem tesão. Ultimamente não ando sentindo nenhum.
    Beijo, MM

    04/11/2010 às 15:25

  6. Adoro me perder. E muitas me perco. Mas, perdições, sem noção, do coração, estou curada!

    bjos, ú&e =**

    04/11/2010 às 18:06

  7. muito bem escrito, parece que vi a cena!

    04/11/2010 às 18:59

  8. aha, uma hora acaba acontecendo…

    04/11/2010 às 22:56

  9. Pingback: Perdição « Contices

  10. As mãos chegam primeiro, preparam o terreno, aceleram a respiração.

    05/11/2010 às 19:53

  11. O proibido, ou o que não tão facil de ser conseguido, sempre é melhor…

    Fique com Deus, senhorita Menina Misteriosa.
    Um abraço.

    08/11/2010 às 00:43

  12. Heru_sa

    Menina Misteriosa,

    Mais uma vez obrigado pela honra de me ceder espaço tão precioso.
    Os comentários mostram o alto nível de seus leitores – o bom gosto atrai o bom gosto.

    “Contices”, minha casa, está de portas abertas a todos vocês.

    08/11/2010 às 12:52

    • Menina Misteriosa

      @Heru_sa,
      Puxe uma cadeira, sinta-se à vontade, a casa é sua!
      Beijo

      08/11/2010 às 13:17

  13. Já se diz, que, para tudo, há sempre uma primeira vez. E, então, ela, que sempre fôra atriz principal, se vê no papel de coadjuvante.

    Muito, muito bom!

    ;)

    12/11/2010 às 22:51

  14. Jorge (miltextos)

    Perdições ilegítimas: o desperdício, o desdém, a arrogância, a covardia… que a verdadeira perdição está entre as reticências e a exclamação – mudas.

    18/11/2010 às 07:17

  15. Miss

    Saudades de te ler…

    23/11/2010 às 17:17

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