Arquivo para abril, 2011

Olha pra mim*

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Azul e clara. Assim eu via a noite que, apesar da presença dela, estava escura e cinzenta. Ela me via entre folhas. E sabia. Sabia que eu evitava o olho no olho. Para que você não me visse. Para não permitir você entrar e eu me envolver.
 
Aconteceu mais de uma vez. Uma evitando o beijo. A outra, o sentir. Então, sou eu. Sou eu que me defendo da paixão. Eu que controlo a ânsia de te provocar. De dizer minhas vontades. De realizá-las com você. Eu que me faço forte. E, sem perceber, desencano. Porque eu não me rendi. E sem entrega é mais fácil me desvencilhar.
 
Nunca mostrei o anseio inconstante e incontrolável. Que poderia surgir no meio da tarde. Que me faria te ligar e dizer safadezas, enquanto me tocava e ouvia a sua voz. Que te enlouqueceria quando menos esperasse. Que te faria ouvir meu prazer, mesmo que eu não dissesse uma palavra. Que alteraria a respiração só de imaginar. E nos faria querer mais e mais. E mais.
 
Guardei o talante do gosto. Do gozo. Guardei. Guardei fantasias. Guardei confissões. Guardei loucuras como te imaginar… como nos imaginar… Eu não falei. Nem pistas eu dei. A ponto de você pensar que estivesse desinteressada. E estava. Do normal que você sempre teve, eu estava. Sufoquei um interesse para que os outros pudessem sobreviver.
 
Não quis como era previsto querer. Era normal, esperado, sem graça. Fugi tanto que não senti. Se acha que me teve, não sabe o que é ter. Ou sentir. Talvez, você também não se entregue. E nem tenha percebido.
 
Há tanto envolvimento de outra forma que seria até bonito. Eu confio em você. Fora da cama. Fora do toque. Fora dos corpos juntos. Na verdade, eles nunca estiveram juntos. De verdade, não estiveram.
 
Nesse tempo, só um conseguiu chegar até mim. Derrubou a barreira e houve entrega. Mas faltava o resto. Talvez, por isso, eu tenha o deixado chegar tão perto.
 
Como seria se, de novo, eu deixasse que todos os interesses se encontrassem em uma só pessoa?
 
É engraçado te dizer isso assim, olhando nos seus olhos. É que hoje tenho a certeza de que você não consegue me fazer ser sua.
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* segurando meu rosto com as duas mãos,
sugando meus olhos pros dele.
por achar que, assim, eu não poderia fugir.
 
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O Álibi e a Lábia

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O Fernando [Coluna Fantasma] conseguiu imaginar um dos desfechos mais assustadores. Acredito que não por experiência própria e, sim, pela mais pura inspiração...

Se chegou direto aqui, sabia como tudo começou e acompanhe Heru, Mirian e Luna e seus desfechos.

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O Álibi e a Lábia

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– Hahahahahahaha!
– Romualdo!
– Hahahaha… Hahaha… Espere, ai, ai, meu abdome… Hahahaha!
– Qual a graça, Romualdo? Posso saber?
– Caramba, Clarimunda, essa história é tão esdrúxula, que me pegou de surpresa. Tive de rir.
– Como assim? Ô Romualdo, anda logo, desembucha!
– Clarimunda, você vai acreditar em uma colega do grupo espiritual que se diz sua amiga ou em mim, que nunca neguei ter sido canalha, mas que enfim, me encontrei no teu regaço?
– Romualdo, não me enrola!
– Hahahahahaha, não tô enrolando, meu bem.
– Dá pra parar de rir e me explicar isso?
– Linda, a risada é companheira de quem não teme o futuro. Pergunte onde estive pra aquele seu amigo, de nome escroto, que você me apresentou dia desses. Rosildo, Argildo…
– O Ronildo?
– Isso. Pergunte a ele.
– Mas Ronildo mora no Rio.
– Exatamente. Fui cedo pra lá hoje, tive reunião de urgência. Eu o encontrei num sushi, no almoço. Ligue pra ele.
– Er… Quer dizer que, bom, é, tá! Amanhã eu ligo, agora já está tarde!
– Meu bem…
– Que é?
– Namora comigo?
– (Ai, que lindo!) Não sei não, Romualdo! Você é muito galinha! Aposto que essa era a pendência que você tinha pra resolver!
– Claro que não. E eu fui galinha, pretérito. Mas te encontrei. Tô te pedindo em namoro justamente por isso: é um voto de confiança em nós. Ou acha que eu o faria se eu quisesse uma despedida de solteiro, com aspas? Pra quê? Você nunca me cobrou status de relacionamento. Eu poderia ter essa despedida e depois começar a te namorar. Mas não quero. Você é muito especial, meu amor.
– (Mas é um canalha. E um canalha tão fofo…) Humpf! Sei… Amanhã a gente conversa, tá bem?
– Tudo bem, meu amor. Se sonhar consigo mesma, fui eu, que desejei que você dormisse com os anjos.
– Beijo, tchau.

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– Alô? Juvenal?
– Fala, Romualdo!
– Meu irmão, quase me fodi agora.
– O que rolou?
– Lembra daquela fela da puta que te contei, que se joga em cima de mim, lá no grupo espiritual? Acredita que ela ligou pra minha namoradinha, futura namorada, a Clarimunda, e disse que eu a tinha comido hoje?
– Puta merda! E aí?
– E aí que ela se deu mal, porque hoje estive no Rio o dia todo. E por sorte, encontrei um amigo de Clarimunda lá.
– E você contou isso pra Clarimunda? E aí, e aí?
– Contei, ela ficou sem jeito. Mas Clarimunda é dessas que jamais dão o braço a torcer. Daí, tive de pedi-la em namoro pra reverter a situação e não deixar isso começar a feder, ela desconfiar demais.
– Fez o certo. Mulher que é desconfiada demais, vai atrás e só encontra o que não deve.
– Pior que eu precisava protelar só mais uma semaninha esse pedido.
– É, dos males, o menor. Agora, coisa de louco isso dessa menina ligar falando essas coisas pra Clarimunda, hein?
– Absurdo, não?
– Sem dúvida. Ela deve ter alguma mágoa de você, ninguém faz isso à tôa. É meio doentio.
– …
– Romualdo, você comeu essa louca?
– Comi. Mas na semana passada.
Kkkkkkkkkkkkkkkkkkk! Romualdo , você me mata de rir…  E agora? Qual o próximo passo?
– Serei cauteloso com Arabela.
– Que Arabela?
– Outra gata lá do grupo espiritual que tá facilitando e que eu tô doido pra comer…

Fernando Ramos

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O presente

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A Luna é uma das amigas mais espirituosas que tenho. Perfeita para criar um desfecho para esses dois.
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Se você chegou direto aqui, conheça a 1a parte da história e as continuações 1 e 2!
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O presente
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Clarimunda sorriu ao ouvir o relato da amiga: as coisas pareciam andar no ritmo que planejava.
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À noite, Romualdo foi visitá-la, como haviam combinado. Estava mais romântico, mais atencioso e ainda mais apaixonado. Carregava um misto de culpa e alívio, uma culpa que, em outros tempos, não faria sentido algum para ele e um alívio que não fazia sentido naquele momento. Reparou que sua amada estava diferente, que um ar de satisfação sombria era evidente em seu rosto. Ela lhe deu seu beijo mais quente, pegou-o pela mão, fez com que sentasse no sofá e disse:
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– Eu já decidi o que quero de presente!

Romualdo ficou feliz, era um sinal de que ela aceitara seu pedido de “namoro sério”.
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– E o que quer, minha flor? Uma jóia?

– Não, não quero uma jóia e sim algo bem mais significativo.

– Busco a lua e as estrelas pra você, é só dizer! – respondeu Romualdo com toda a cafonice de que era capaz.
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Clarimunda olhou para o relógio e antes que o namorado pudesse perguntar se ela esperava mais alguém, a campainha tocou. A moça foi até a porta e voltou acompanhada pela amiga, a que Romualdo havia comido horas antes, que ao vê-lo ali ficou sem reação. Romualdo cometeu mais um erro crasso e começou a tentar se justificar, atropelando as palavras, escorregando na própria língua.
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– O presente que eu quero é a prova da caça, quero a cabeça “do alce” empalhada, para enfeitar a parede da sala da nossa futura casa.

O rapaz quase desmaiou mas por amor à Clarimunda aceitou o machado que ela lhe oferecia e em apenas um golpe certeiro fez o sangue da vítima salpicar o tapete.
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Renasceu.
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Luna Sanchez

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Fidelidade Canina

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Quando comentei com a Mirian sobre a ideia de dar um desfecho para o a história do Romualdo e da Clarimunda, passamos horas conversando sobre “interação” entre blogueiros; papo que rendeu esse conto sensacional e ainda trará outros ótimos frutos. Eu, que estava com saudade de seus textos, confesso que me arrepiei ao ler.

Se você chegou direto aqui, conheça a 1a parte da história e a 1a continuação.

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Fidelidade Canina

Enquanto ela ouvia, sentia incendiar-se.

– E… e quando ele…ele a penetrou…quer dizer, quando ele na verdade, a estuprou, ah… você sentiu… sentiu alguma coisa?

– Ah, amiga… Pensei tanto no erro que você estaria fazendo… Lamento falar isso. Lamento, mesmo.

Foi nesse exato momento que ela decidiu que ele seria o homem de sua vida. Daquele jeito. De fazer o sangue ferver.

Casaram na igreja. Ela, de véu e grinalda, ele com um  smoking meio grande demais para ele, mas mesmo assim, elegante. A amiga estava de roxo, combinando com o olhar tristonho com que contemplava a noiva que entrava triunfante.

– Até que o monte os separe. – ela ouviu alguém dizer, aliás, já fazia tempo que não ouvia as coisas muito corretamente. Ou interpretava as coisas de maneira bem diferente do que deveria ser.

Assim, na noite de núpcias, para espanto dele, ela deu uma caixa de preservativos.

– Prá que  isso?! – entre assustado e imaginando que teria que usar aquilo pelo resto da vida, justo ele!

– Quero que pegue uma garota na rua agora, transe com ela com o celular ligado.

– Como é que é?! – sem entender.

– Quer que eu desenhe?

– Mas… mas eu casei com você.

– E eu com você, pelo que você era. Portanto, vá, faça o que eu disse, e volte depois de uma hora e me encontrará aqui, pronta para você.

Por puro acaso, ele encontrou a amiga, a boa amiga. Ele contou uma história qualquer para disfarçar o constrangimento do lance, ligou o celular discretamente  e comeu a amiga sortuda.

Voltou para casa e a Clarimunda estava lá, rosto afogueado, quente, quase nua, que o recebeu com um tapa no rosto. Mas isso foi só o começo de uma noite, e de muitas noites, quando Clarimunda fez, defnitivamente, de Romualdo, o seu cão fiel.

Mirian Martin

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O troco

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O conto “Além de safado, burro” rendeu uma ótima e inteligente discussão saudável nos comentários e mexeu com temas como traição, perdão e amizade.  Por email, recebi pedidos e sugestões. Tanta polêmica, não poderia ficar sem desfecho. E merecia mais de um, para apimentar. Convidei alguns amigos que prontamente aceitaram e me deram a honra de publicar seus textos.

O primeiro é o querido e “admirado” Heru_sa que nos presenteou com essa delícia de conto, com os requintes mais nobres de seu humor inteligente. Apreciem.

Se você chegou direto aqui, conheça a 1a. parte da história!

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O troco

Assim que saiu do encontro, um extasiado Romualdo tentou ligar para a amada Clarimunda para contar, não conseguia parar de pensar nela, em nenhum momento, nenhum, deixara de pensar nela, e agora sim, tudo resolvido, estava livre, nada mais o impedia, tinha exorcizado seus fantasmas e encostos, com força e com vontade tinha explodido em libertação, era outro homem, nunca mais as outras, pronto para ela!

O celular ocupado e depois sem resposta teve o efeito de um banho gelado, mas tudo bem, falaria com ela à noite na reunião do grupo.

Fato é que o telefone de Clarimunda jazia em pedaços no canto do quarto, tal a violência com que fora arremessado na parede tão logo a “amiga” desligou. Porém, poucos minutos de choro sobre a cama foram suficientes para a atraiçoada superar as fases de negação e de ira, transpondo também rapidamente a negociação e a depressão, dor, dor, dor! Mas aceitar, não, não aceitaria.

Ceder e confiar, eis o teu equívoco, Clarimunda. O plano de vingança lhe veio à mente como uma dádiva dos céus.

À noite, Romualdo chegou mais cedo para a reunião, queria falar com a sua paixão antes, mas uma vizinha veio avisando a todos que hoje ela se atrasaria. Ainda mais ansioso, Romualdo fugiu como pôde da fulana com quem estivera à tarde, mulherzinha insuportável, grudenta, e vir agora falar assim, essas coisas, da minha Mundinha.

A outra não deu trégua até o apaixonado se exaltar, não enche, mulher, se liga, foi só uma vez, não gostei, não quero nada com você!

A entrada de Clarimunda no salão fez a amiga engolir as lágrimas. Nunca a vira tão arrumada, jeans justo e salto alto ressaltando o atributo que melhor rimava com o nome da rival, que nem era assim feia de rosto. Enroscado no monumento, braço sobre os ombros dela, um tipo alto e forte.  — Geente, deixa eu apresentar, o Julio aqui, ele é meu treinador faz um tempo, trouxe ele pro grupo, nos entendemos hoje… vamos casar!

Heru_sa

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