Arquivo para setembro, 2011

Guaranteed: o início depois do fim

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Dele me lembro do abraço quente. Do beijo que não deixei que me roubasse. Das flores criminosas. Da vulnerabilidade dividida. Da lealdade. Das mãos dadas. Da paixão sufocada. Da sensação de beber o vinho no gargalo, no meio da rua.

Dele me lembro dos desencontros. Das vontades intensas fora de hora. Dos sorrisos sem graça em companhias alheias ao nosso mundo.

Dele me lembrarei da surpresa de agora. Da descoberta do desejo ainda pulsante.

Da sintonia ainda viva: “Foi exatamente isso que eu pensei. Se não aproveitarmos essa sensação agora, não teremos outra chance, pelo menos, não nessa vida”

Dele sei que as lembranças com ele estão só começando a serem construídas.

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Such is the way of the world…..
You can never know…..

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[sem síndrome da tagarelice arrependida]

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“Posso começar com uma confissão? Tenho medo de você. Não é bem medo, porque sinto em algum lugar (no meu sexto sentido, talvez) que você é uma pessoa doce, que dificilmente machucaria alguém. Mas medo, porque você tem aquela coisa que me faz falar sem ter medo. Tenho medo de você porque você me faz perder o medo, e o medo é a minha melhor defesa (é claro que isso não quer dizer que seja algo ruim, às vezes gosto de me sentir assim, livre das amarras nas quais eu mesmo me atei no ofício complicado de conhecer pessoas).

(…)

Admito que mal conheço você, mas de certa forma sei que conheço. Gosto de você. Gosto daquilo que não conheço. Naquilo que me reconheço. Não tente entender (ninguém entende, só eu).* “

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Esse trecho foi escrito, para mim, por uma pessoa que estou deixando entrar e me conhecer um pouco mais.

Li e senti um arrepio trovejar minha serra dos órgãos, daqueles quando alguém nos descreve sem saber. Ele estava falando dele em relação a mim. Mas parece que estava falando de mim. Em relação a você. Sim, porque é assim que eu me sinto com você.

É estranho e bom. Como virar um pronome possessivo, por gosto de querer o ser.

Certeza não se explica.

“Quem disse que o estranho não pode ser digno de admiração?”. Eu admiro esse meu sentimento de não temer que você veja minha sombra no escuro. Sem enaltecer, sem altar, sem seres intocáveis.

É um sentimento bizarro e bizarro não é estranho só. Bizarro vem do italiano bizarro que denota aquilo que é: elegante, puro de caráter, gentil, generoso, digno de admiração, original.

E nosso. Quer dizer, não posso dizer que é nosso. Posso dizer que é meu. Sim, eu tenho um sentimento bizarro que é meu sobre o nosso que eu construí e re-construo de noite, “quando o sol dá a alma pra noite que vem”**…

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** Nós – Barão Vermelho

*trecho de uma carta dele, enviada só para mim

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tear

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Por mais que eu reclamasse, achava bonitinha sua loucura para me re-conquistar. Até aquele dia. Eu o levei ao nosso bar de sempre. Não nosso. Eu que te apresentei. Não que fosse meu. Isso não importa. Estávamos lá, com mais um casal. É lógico que lembraram de você, perguntaram, o assunto veio à tona. Ele, meio ciumento, não gostou, mas matamos o assunto ali. Até você aparecer. Do nada. Justamente naquela noite. Há anos você não ia lá. Os garçons sabiam, tentaram evitar, mas você foi até nossa mesa. Puxou uma cadeira, se sentou com a gente. Provocou-o. Quis provar que me sabia. Ele ficou irritado. Saiu sem dizer uma palavra. Eu te xingava e te batia, torcendo para que você ficasse longe e não me abraçasse. Ele voltou. Puxou o casaco pro lado e mostrou uma arma. Mandou você se afastar e nos ameaçou. Você, não menos louco, fez o mesmo. Por essa ele não esperava. Eu gelei. Vocês pareciam animais. Preocupados com a “vitória” e com a posse da razão sem sentido. Personagens de um filme triste. Solitários. Eu não queria fazer parte. Não fiz. Pavões e galos de briga nunca me atraíram.

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A viagem

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Um amigo, que a cada dia se torna mais querido, muito bem resumiu: “adoro tornar reais as loucuras minhas e alheias”.

A Mi fez isso: acreditou na minha bagunçada loucura gravada, às pressa no celular, em meio a curvas, crendices e delírios e tornou-a real.

Obrigada, Mirian!

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Lembro ainda hoje, assim como me lembrarei pela eternidade das eternidades, meu irmão berrar.

– Carlão! Carlão! – e daí ele largar sua bicicleta entre o meio fio da estrada e a própria estrada.

O carro que me atropelou parou, a mulher tremia.

– Eu não o vi… – gaguejava ela, soluçante. Naquela curva ninguém via ninguém e, pelo jeito, ela devia estar brigando com os dois pivetes que olhavam assustados pela janela traseira do carro.

Eu quis ficar para ver o que aconteceria, já que aconteceu, nada como ver o que os outros vão fazer sem você estar por ali. Aliás, estando, mas não estando.

É um porre, vou dizer! Tudo demora muito. Muito mais que uma eternidade. Porque eternidade você sabe o que é, mas quando se espera uma coisa o mais rápido possível, esse mais rápido possível é uma eternidade dolorida, sufocante, impotente.

Meu irmão chorava, mal conseguia ligar para minha mãe, dizendo que achava que eu tinha morrido na estrada. Para falar a verdade, a mulher quase não tinha culpa, porque eu estava falando no celular enquanto pedalava pela estrada e devo ter entrado na frente da coitada e ela vai ter que entrar num processo por um crime culposo – ela não tem culpa, mas matou. Culposo… Por que advogado complica as coisas? Se ela tem culpa é culposo. Mas daí fiquei sabendo que tem o doloso, que é aquele que a pessoa teve intenção de provocar o crime, o assassinato, o tal dolo. Imagina! Aquele doce de mulher querer me matar, justo eu, que nem conhecia a pobre coitada, que brigava com aqueles dois pivetes! Se fosse ela matava aqueles dois, isso sim!

Falando nisso, nessa eternidade eterna, conheci a Joaninha. Bom, eu a chamo de Joaninha porque ela não lembra o nome dela direito. Morreu quando tinha os seus dois anos. Tá lá a sua cruz com uma fitinha branca. Ainda chupa o dedo esperando a mamãe. Mas a mãe ela subiu tão logo morreu. Joaninha, criança que era, não viu e não foi atrás. Ficou aturdida e, me vendo, veio chorando querendo a mamãe.  Então, normalmente ficamos nós dois olhando os carros passarem apressados, as bicicletas ainda bambeando porque os moleques ainda cismam em ficar falando em seus celulares. Já vi até meu irmão passando por aqui outro dia – bem mais velho! Fiquei sabendo que se casou, finalmente, com a Cristina, aquela gostosona. Ainda bem que estou morto, porque senão ele me mataria com um comentário desses.

Outro dia passou um caminhão da Coca- Cola. Joaninha disse “Coca”! Eu fiquei feliz da vida! É… porque além de mamãe, ela só falava o meu nome e mais nada. Sabe, acho que fica desses traumas… Agora também fala Coca. Quem sabe, se andarmos por aí ela descobre alguma outra palavra perdida de seu parco vocabulário.

Conheci também a Lídia. Essa era uma puta. Daquelas! Só que o caminhão não viu. Ela morre – redundância idiota – de ódio por conta disso. Como é que um caminhão não consegue reconhecer uma prostituta? Pior! Passa, mata e vai embora! Nem viu!

Bom, eu acho que ele iria morrer, senão naquela noite mesmo, talvez noutra, porque ele devia estar quase dormindo, o coitado.

Mas aqui tudo é muito calmo, talvez uma réplica de um paraíso feito especialmente para a gente ficar aqui na terra enquanto  não aparece outra chance da gente subir, sei lá para onde. Lá embaixo tem alguma coisa messiânica, que nunca me interessou, mas, sinceramente, não gostaria de levar Joaninha e Lídia num lugar como esses. Sei lá se eles nos achariam seres do mal ou como resposta de uma vinda de paraíso messiânico… São coisas que passam pela minha cabeça…

Eternidade é coisa boa… Dá para pensar em tanta coisa… Mas às vezes cansa. Lídia saiu agora com Joaninha. Foram para a floresta procurar algum brinquedinho que talvez fosse de Joaninha. Já fizeram isso milhões de vezes e nunca acharam nada.

É… Eternidade é um porre.

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Na noite do feriado da independência, a dependência de amor

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Não escrevi essa carta. Embora eu pudesse ter dito ou sido alvo de muitos trechos. E, por isso, pedi permissão à autora para publicar aqui.

Se alguém se encontrar nela, é enredo de novela, não há uma só indireta para ninguém. 

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Naquele dia em que te conheci, enxerguei de cara, nos seus olhos, uma pessoa boa. Já te disse isso.

Não mudei de opinião. Não acho que você não o seja. Aos poucos fomos conversando e enxerguei um pouco mais. Um homem bonito, inteligente, extrovertido, cativante.
Um olhar brilhante, um sorriso sincero. Alguém com quem eu gostava de dividir os sorrisos, as histórias, as Stellas e as bobagens.
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Alguém de quem eu fui, aos poucos, aprendendo a querer saber mais… como andava a vida, as filhas, o mestrado, o trabalho, o jiu-jitsu…
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Alguém a quem eu via como um merecedor da felicidade, mas um tanto perdido no passado, nas coisas que acabaram e que, ainda assim, continuam firmes na cabeça e no coração, pelo simples medo de perdê-las de vez… pelo simples receio de trocar o “certo”, mesmo que tão incerto, pelo “duvidoso”, ainda que tão certo este fosse.
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Aos poucos, fui percebendo que você via a vida de forma parecida com a que eu mesma a enxergo. Alguém que, apesar de mostrar-se um tanto egocêntrico, (ao falar mais que ouvir, falando mais de si que querendo saber de mim; ao procurar-me somente quando sentia vontade ou tinha interesse, sem, no entanto, sentir-se na obrigação de atender-me quando era eu quem o procurava, ou de retornar mensagens e ligações perdidas, como eu mesma sempre fiz com você), ainda assim, fui vendo-o como alguém que tem diversas qualidades, que compensavam até mesmo esses defeitos que eu, tantas vezes, em outras ocasiões, já considerei inaceitáveis e que sempre me deixaram meio sem chão. Fui compreendendo que era seu jeito e que nunca foi por mal.
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Fui enxergando o quanto havia em comum. O quanto as conversam rendiam e os corpos combinavam. O quanto os olhos brilhavam e as bocas queriam. E, apesar do eterno jogo de gato e rato, onde o meu sumiço sempre foi a “isca” para a sua procura, ao mesmo passo em que a minha procura era a certeza da sua fuga, ainda assim, fui acreditando que poderíamos ir nos aproximando cada vez mais, e que eu poderia, aos poucos, ir te fazendo acreditar que a vida está na sua frente, só basta que você abra os olhos para enxergar.
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E não digo isso falando de nós. Poderia sim, ser. Ou não. Mas falo do geral. Falo do que você ainda vai viver, do que a vida ainda vai colocar na sua frente, e talvez você não enxergue, simplesmente porque estava olhando pra trás.
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Imaginava que você fosse alguém que, com tanta vida vivida, com tanta ferida na alma, tivesse a maturidade de discernir entre o verdadeiro e o falso, reconhecer intenções e respeitar sentimentos. E pessoas.
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O via, pelo nosso pouco convívio, como um homem maduro, que, mesmo que pudesse ser “pilhado” por pessoas de menos maturidade, soubesse portar-se de modo a zelar por algo que (ao menos ao meu ver) foi bom e poderia ser ainda melhor. Se não um relacionamento homem x mulher, ao menos uma relação de amizade, que poderia crescer como algo verdadeiro, sincero, leal e saudável.
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Sinceramente, não consegui compreender suas atitudes, nem tampouco a falta delas. Não consegui entender como se demonstra interesse num momento, para, no instante seguinte, aparentar desinteresse e, ainda mais que isso, desconsideração. Não consegui entender como pôde ser tão maduro em dados momentos, para, em outros, mostrar-se tão infantil. Não consegui entender pra quê tanto contato, se a intenção jamais tiver sido envolver-se.
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Se apenas queria o corpo, deveria ter sido franco. Eu te diria que não costumo entregar-me somente de corpo, e nós pouparíamos tempo e decepção.
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E se a intenção não era somente esta, então, por favor, me explica. Por quê eu sinceramente gostaria de saber e de poder continuar a acreditar que não me doei em vão.
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Me desculpe pela extensão das linhas, e pelo tocar em feridas que talvez ainda te doam. Mas te escrevo por mim, pra me livrar do que grita aqui dentro, independentemente de saber se um dia saberei da verdade, ou não.
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Deletei seus números de telefone e suas mensagens. Te excluí das redes sociais e do msn. E talvez até pareça, mas não o fiz por pirraça ou infantilidade. O fiz somente para que eu aprenda a não ceder aos meus impulsos de te procurar. Se um dia ainda quiser conversar, desde que seja de forma franca, você sabe como me achar.
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Se cuida e pensa um pouco.

Acho que você sabe, mas nunca é demais dizer:
só quero que fique bem.

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Dog Days Are Over [ou pequenas mudanças de luz]

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para quem não gosta de ler em inglês, abaixo, no vídeo, o diálogo traduzido.

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*** Grace – If you don’t want to kill me then why did you come?

Her father – Our last conversation the one in which you told me what it was you didn’t like about me never really concluded as you ran away…

… I should be allowed to tell you what l don’t like about you. That l believe would be a rule of polite conversation, you know…

*** Grace  – You’re sure you’re not here to force me to go back and become like you?

Her father – If  I thought there was a chance of forcing you, but of course that will never happen.

*** Grace – So what is it? What is it, the thing… the thing that you don’t like about me?

Her father – lt was a word you used that provoked me… You called me arrogant

*** Grace – To plunder as it were a God given right l’d call that arrogant, daddy

Her father – But that is exactly what l don’t like about you: lt is you that is arrogant!

*** Grace – That’s what you came here say? l’m not the one passing judgment, Daddy, you are

Her father – No, you do not pass judgment because you sympathize with them

… A deprived childhood and a homicide really isn’t necessarily a homicide, right? The only thing you can blame is circumstances …  Rapists and murderers may be the victims according to you, but l call them dogs and if they’re lapping up their own vomit the only way to stop them is with the lash

*** Grace – But dogs only obey their own nature. So why shouldn’t we forgive them?

Her father – Dogs can be taught many useful things but not if we forgive them every time they obey their own nature

*** Grace – So, l’m arrogant … l’m arrogant because l forgive people?

Her father – Can’t you see how condescending you are when you say that?

You have this preconceived notion that nobody, listen, that nobody can’t possibly attain the same high ethical standards as you so you exonerate them

l can not think of anything more arrogant than that

You, my child… my dear child… you forgive others with excuses that you would never in the world permit for yourself

*** Grace – Why shouldn’t l be merciful? Why?

Her father – No, no, no You should, you should be merciful … when there is time to be merciful

But you must maintain your own standard. You owe them that. You owe them that. 

The penalty you deserve for your transgressions they deserve for their transgressions

*** Grace – they are human beings

Her father – Does every human being need to be accountable for their actions?

*** Grace – Of course they do

Her father – But you don’t even give them that chance.

And that is extremely arrogant

l love you, l love you  l love you to death. But you are the most arrogant person l have ever met. And you call me arrogant! l have no more to say

*** Grace – You are arrogant, l’m arrogant You’ve said it, now you can leave

Her father – And without my daughter, l suppose?

*** Grace – Yes

Her father – Well, you decide, you decide…

… they say you are having some trouble here

*** Grace – No. No more trouble than back home.

Her father –  l’ll give you a little time to think about this …   Perhaps you will change your mind

*** Grace – l won’t

Her father – Listen, my love… power is not so bad… l am sure that you can find a way to make use of it in your own fashion… Take a walk and think about it!

*** Grace – The people who live here are doing their best under very hard circumstances.

Her father – lf you say so, Grace …  But is their best really good enough?

Do they love you?

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Dogville, Lars Von Trier, cap. 9

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