Arquivo para fevereiro, 2012

Jardim inchado de silêncio *

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foto: arquivo pessoal

“… tempo, essa volúpia de fazer sumir sem trégua…”
Carlos Nejar

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Minha mania de contar esquinas se perdeu de você. Quantas, só hoje, dobraram seu caminho?

Daqui, consigo ainda imaginá-la. Com um sapatinho boneca sem salto, cabelo solto e meio molhado, vestidinho leve, sacola de compras. A vontade que me dá, hoje, de ter aproveitado, no ontem, esses passeios contigo me consome. Nunca fui. Controlava seu trajeto, engaiolava seu tempo. Sentia-me seguro na insegurança que te impingia.

Fiz nossa relação encruzilhar-se com a vida. Sem te dar opção.

Foi numa esquina que de mim você se desvencilhou.

Aquele dia não seria de mercado. Embora eu precisasse de tanta coisa! A lista que eu havia feito ficou sobre a cômoda, ao lado da chave. A sacola nem saiu do armário. Eu não reparei. Tão cega era minha certeza desleixada.

Você andou à revelia, suponho. Talvez, tenha comprado um livro e com ele sentado-se em um café não muito longe de casa. Sua atenção insistia em desviar-se da ficção, sem controle. Era vida que você buscava. Desde o começo. Meu medo sempre foi que você a encontrasse. Quase posso sentir o momento do trincar: você percebeu a redoma que minha obsessão medrosa transvestida de amor criou para te sufocar e decidiu-se. Nem pedaço sobrou.

Um longo suspiro, como o que deve ter selado sua liberdade, sela hoje minha prisão. Esforço-me para sentir um traço ainda que longínquo do seu perfume pela casa, nas roupas que ainda são suas, mas já não te vestem. Encontro-o, embaçado, sujo e confuso lá nos fundos. No seu jardim. A única parte da casa que era sua e só sua. Você cuidava dele como cuidava de mim e eu nunca aceitei te dividir; convidava-me a fazer parte dele e eu nunca quis. Estava ocupado demais em nunca te perder.

Hoje, seu jardim é minha casa. Cuido dele como, antes, não cuidei de você. As flores e até frutos, quem diria!, retribuem meu carinho ao te trazerem de volta para mim em forma de cor, cheiro, sabor. Até a textura aveludada da sua pele consigo sentir em cada pétala que toco. Tuas palavras antes tão abundantes e nunca ouvidas escureceram-se, enterraram-se aqui e por mim são veladas.

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* Texto originalmente publicado na Confraria de verão.

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