Jardim inchado de silêncio *

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foto: arquivo pessoal

“… tempo, essa volúpia de fazer sumir sem trégua…”
Carlos Nejar

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Minha mania de contar esquinas se perdeu de você. Quantas, só hoje, dobraram seu caminho?

Daqui, consigo ainda imaginá-la. Com um sapatinho boneca sem salto, cabelo solto e meio molhado, vestidinho leve, sacola de compras. A vontade que me dá, hoje, de ter aproveitado, no ontem, esses passeios contigo me consome. Nunca fui. Controlava seu trajeto, engaiolava seu tempo. Sentia-me seguro na insegurança que te impingia.

Fiz nossa relação encruzilhar-se com a vida. Sem te dar opção.

Foi numa esquina que de mim você se desvencilhou.

Aquele dia não seria de mercado. Embora eu precisasse de tanta coisa! A lista que eu havia feito ficou sobre a cômoda, ao lado da chave. A sacola nem saiu do armário. Eu não reparei. Tão cega era minha certeza desleixada.

Você andou à revelia, suponho. Talvez, tenha comprado um livro e com ele sentado-se em um café não muito longe de casa. Sua atenção insistia em desviar-se da ficção, sem controle. Era vida que você buscava. Desde o começo. Meu medo sempre foi que você a encontrasse. Quase posso sentir o momento do trincar: você percebeu a redoma que minha obsessão medrosa transvestida de amor criou para te sufocar e decidiu-se. Nem pedaço sobrou.

Um longo suspiro, como o que deve ter selado sua liberdade, sela hoje minha prisão. Esforço-me para sentir um traço ainda que longínquo do seu perfume pela casa, nas roupas que ainda são suas, mas já não te vestem. Encontro-o, embaçado, sujo e confuso lá nos fundos. No seu jardim. A única parte da casa que era sua e só sua. Você cuidava dele como cuidava de mim e eu nunca aceitei te dividir; convidava-me a fazer parte dele e eu nunca quis. Estava ocupado demais em nunca te perder.

Hoje, seu jardim é minha casa. Cuido dele como, antes, não cuidei de você. As flores e até frutos, quem diria!, retribuem meu carinho ao te trazerem de volta para mim em forma de cor, cheiro, sabor. Até a textura aveludada da sua pele consigo sentir em cada pétala que toco. Tuas palavras antes tão abundantes e nunca ouvidas escureceram-se, enterraram-se aqui e por mim são veladas.

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* Texto originalmente publicado na Confraria de verão.

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15 Respostas

  1. Primeiro, tenho de dizer que tudo na vida serve de aprendizado, então , espero sinceramente que tenha aprendido, pois ninguém é de ninguém a não ser de si mesmo, e sendo de si mesmo temos de adquirir confiança suficiente na nossa pessoa para saber lidar depois com os outros.

    Em segundo lugar, tenho que dizer que a forma que você relatou essa vivência tão comum nas pessoas ficou maravilhosa. PARABÉNS. Ficou lindo!

    Daniel

    10/02/2012 às 17:25

    • Menina Misteriosa

      Daniel,
      Eu aprendi, há tempos, a me libertar. A não me deixar prender. E só consigo estar com quem eu admire e admiro quem é livre.

      Uma amiga, quando leu esse meu texto, pensou na relação mãe e filho. Há tantas perspectivas!

      Obrigada, Daniel!

      Um beijo

      22/02/2012 às 10:47

  2. Poxa quanta delicadeza e sensações em palavras, tinha que ser vc a escrever, Menina, beijão.

    11/02/2012 às 19:28

    • Menina Misteriosa

      Obrigada, Dea!

      A sensação alcança aquele que permite, que sente.

      Um beijo, minha linda!

      22/02/2012 às 10:50

  3. Oi, Menina!!!!
    Como está você?
    Um excelente feriadão!!!!
    Beijocas!

    16/02/2012 às 00:33

    • Menina Misteriosa

      Ei, Soninha!
      Muito bem! E você?

      22/02/2012 às 10:52

  4. Continua escrevendo tão delicamente como você! Lindo demais. Bjsss

    22/02/2012 às 18:50

    • Menina Misteriosa

      Obrigada, Paty!

      Sabe que cada um tem a Lu que merece, né? =)

      22/02/2012 às 19:31

  5. pena q não tem como curtir… mas eu curti!
    como sempre me senti inserida no contexto, mas um contexto só meu.
    saudade.

    23/02/2012 às 21:19

    • Menina Misteriosa

      S., tem como gostar… serve? =P

      15/03/2012 às 15:53

    • serve!!!

      21/03/2012 às 19:02

  6. Sinto saudades daqui…

    Um beijo, flor. Te amo, irmãzinha linda.

    05/03/2012 às 11:03

    • Menina Misteriosa

      Miss, você me lembra da saudade que eu sinto de mim, aqui.
      Love you!

      15/03/2012 às 15:53

  7. Tenho um jardim assim, assim e assim. Às vezes me lembro de quase deixar morrer. Outras, me esqueço e rego e cuido, melhor até do que cuido de mim.

    Beijo meu.

    06/03/2012 às 11:04

    • Menina Misteriosa

      Que linda, a Flavinha de cabelo compridão! =)

      Já cultivei jardins assim… hoje cuido em me descuidar. Aí, eles florescem com gosto!

      Beijo!

      15/03/2012 às 15:55

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