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pior é que já

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Era besteira, confesso. Era besteira o que eu estava pensando assim que parei de correr. A música me lembrou a arte de cozinhar e me deixei levar por alguns segundos. Quase ninguém sorri como você, você corre sorrindo. Não, não se assuste. Me desculpe chegar assim. Anda um pouco comigo? Eu sei, mas você me parece rápida e é nova. E ainda tem sol. Vem e eu me apresento propriamente. Não sei bem porque fui. Mal ele não iria me fazer. Era uma versão feminina da senhorinha do terço. Só que mais forte. Magrinho e forte. Com fôlego de ex militar. As plaquinhas penduradas no pescoço não negavam. Fora a dificuldade para levantar as pernas, andava quase arrastando-as, ainda tinha disposição. Meu filho vai gostar de você, tenho certeza. Não ria, não, não vá embora, é sério.  Não venho aqui caçar pelo meu filho, foi coincidência. Acredita em coincidências? Nessa hora, tantas lembranças se misturaram, que perdi o começo do caso que ele contava tão compenetrado. Só por isso ele não está aqui hoje. Essa fase da farra é de doer e não combina com ele. Certeza que chegará mais sozinho dessa viagem do que antes. Ele precisa de alguém que sorria como você e que dê atenção a velhos loucos na pista de cooper. Não gostava da minha ex nora, se é que posso chamar assim a ex namorada dele, uma interesseira metida arrogante fingida de marca maior. Conheço o tipo de longe. Claro que não durou muito. Ele nem sofreria, não por ela, mas ele ama amar. Até quem não deveria. Puxou isso de mim. Sim, eu me culpo por essa mania que ele tem de sofrer e perder seu tempo com quem não merece. Você não é casada, é?  Reparei que não usa aliança. Se bem que poderia vir correr sem ela, isso me veio à mente; fiquei na dúvida, pois está de brincos, mas imagino que eles não devam incomodar tanto quanto anéis. Eu não me afasto de minhas correntes, por mais barulhentas que sejam quando ando. É ou não? Casada, eu digo. O momento de espanto dele, que quase sempre me persegue, alguns o sabem. Estará aqui no final de semana que vem? Virei com ele, só para podermos te ver, se não se importar. Você é rara, menina, uma verdadeira fidalga, alguém já te disse isso?

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Anagrama

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Perto do meu colégio, havia uma “Clínica da Alergia”. Eu, criança afoita, li alegria e fiquei toda animadinha. Minha mãe – que deve ter tido muita vontade de rir da minha cara – me explicou significados e diferenças.

Fui para casa inconformada e decidida a não deixar uma letrinha fora do lugar me vencer. 

Há pouco tempo, a clínica fechou. No lugar dela, abriram um boteco bonito, convidativo. Eu, agora uma mulher feita, não fiquei triste. Este bar bem que pode ser a nova “Clínica da Alegria”. De um jeito ou de outro, ainda acredito.

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Esse ‘conto’ tem uma versão alternativa, bem diferente e mais perversa. 

…quem sabe um dia…

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da audácia da chuva. sem pressa do sol.

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Se a dor do não vivido é mais amarga quando ainda se tem a chance, mas percebe-se que o momento passou e não há resgate que dê jeito, eu não sei. Sei do buraco que senti.

Teremos 90 anos e ainda a mesma cumplicidade. Foi o tempo do beijo que passou. O desejo se transformou, de tanto ficar guardado.

Difícil ter uma conversa dessas, ainda mais na fila do check in internacional. Difícil saber que nos encontraremos de novo só daqui a quinze dias. Sufocante lidar com o medo de que ele se afaste pela minha escolha do não. Água salgada nenhuma conseguiu reduzir a ansiedade: “como será quando ele voltar?” “será que o orgulho ferido fará com que nos percamos, de novo, um do outro?”.

Até quando a consciência pesada dessa fase cafinha vai me perseguir?

Notícias já vieram do além mar. Com elas, a esperança de que chegaremos, seja como for, até o fim. Com a provocação sadia que tanto nos alegra, nos irrita e nos faz falta.

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nesse turbilhão, a descoberta
de amiga que me vende com amor
de amigo não “contável”
e da alergia à lágrima ácida
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Fui vendida por alguns chocolates suíços e duas taças de um bom vinho. Já nem me interessa saber se a da piscina vai colar lá ou não. De coincidências macabras aquele conjunto está cheio. A distância inclui show virado e convite culpado. Pior do que pedir ajuda é ser mal interpretada.

Tenho mania de manias e uma delas é me explicar demais. Pela irritação dos mal entendidos. Só que existe um limite. Certos desentendimentos não merecem nem a saliva gasta.

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Medo de amar – Adriana Calcanhoto

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conjugação defectiva no tempo da memória

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Assim que pus os pés no aeroporto, sabia que deveria ir comprar um vinho, antes mesmo de deixar as malas em casa. A noite não seria fácil. Quantas vezes quis que meu sexto sentido estivesse enganado. Não comprei o vinho e me senti impelida a não seguir o caminho em néon. Arisca? Irritante essa minha mania teimosa de não fugir do sentir e de querer ir até o fim. De subir no salto, como se não sentisse medo. De sentir falta da falta. De sentir falta do frio na barriga. Enquanto uma decepção me tornava menos crente, uma nova chance me assustava como não deveria. E eu só querendo ser livre com ele, justamente o alguém que tem medo de ficar sem algemas.

………………………….por medo da ausência que – todos nós – seremos e teremos,
………………………………..buscamos, na distância, a falta que nos move?

Descobrir a maldade babaca de uma peça solta da engrenagem que eu defendia, mesmo sob altas doses de irritação infligida, endurece e não há amor que surja do passado que amenize. Nem nada que enrouqueça a vontade de me arriscar no novo inusitado. Sim, eu pularia lá do alto com ele, sem proteção, sabendo que não significaria morte e sim vida. Adiantaria eu segurar a mão dele, desse alguém que eu quero e quero livre de amarras, e pedir: “pula comigo”? Entendo o temor, a cautela, a precaução, a dúvida entre o risco e o ganho, o pensar excessivo. Quem nunca?

Do outro lado, um outro alguém me estende a mão e me diz: “pula”. E eu não quero. Penso, re-penso, hesito.

O querer é estranho, complicado, encantador. Quero o que já tenho, o que conheço e que ainda me surpreende, o que admiro. Não quero o seguro sem emoção que vende a promessa de não deixar cicatrizes. Quero as mãos dadas que me dão uma alegria leve e leal, sem cobranças. O sorriso gostoso do desejo, sem jogos. Com alguém que não me dá certezas e que ainda assim me enche delas.

“Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho” *

Não me encaixo em sonhos. Mal me lembro deles. Tenho ojeriza a idealizações e razões sem sentido. Prefiro os pecados que podemos criar juntos, ainda que não tenham nome; fantasias que, se loucas, são nossas e só nossas; segredos sem sombras, não por devermos algo a alguém, mas por ninguém ter nada a ver com o que vivemos e somos, quando juntos.

“o presente foge, o passado volta e o futuro passa” **

Um pacto implícito, entre ele e suas pessoas, foi rompido. Ausência e falta, hoje, misturam-se num mundo sem paradas que ele criou, onde tempos verbais brigam e se perdem. Dele. No instante em que o imperfeito deixa de se presente, o gosto doce do pronome possessivo se torna amargo. Ele corre, alcança e não suspira. Satisfaz-se com excesso de controle e, ainda assim, não me engana: sim, eu acredito que ele saiba amar.

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* Blues da Piedade, Cazuza e Frejat
** Nem Um Dia se Passa sem Notícias Suas – Daniela Pereira

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Guaranteed: o início depois do fim

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Dele me lembro do abraço quente. Do beijo que não deixei que me roubasse. Das flores criminosas. Da vulnerabilidade dividida. Da lealdade. Das mãos dadas. Da paixão sufocada. Da sensação de beber o vinho no gargalo, no meio da rua.

Dele me lembro dos desencontros. Das vontades intensas fora de hora. Dos sorrisos sem graça em companhias alheias ao nosso mundo.

Dele me lembrarei da surpresa de agora. Da descoberta do desejo ainda pulsante.

Da sintonia ainda viva: “Foi exatamente isso que eu pensei. Se não aproveitarmos essa sensação agora, não teremos outra chance, pelo menos, não nessa vida”

Dele sei que as lembranças com ele estão só começando a serem construídas.

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Such is the way of the world…..
You can never know…..

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[sem síndrome da tagarelice arrependida]

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“Posso começar com uma confissão? Tenho medo de você. Não é bem medo, porque sinto em algum lugar (no meu sexto sentido, talvez) que você é uma pessoa doce, que dificilmente machucaria alguém. Mas medo, porque você tem aquela coisa que me faz falar sem ter medo. Tenho medo de você porque você me faz perder o medo, e o medo é a minha melhor defesa (é claro que isso não quer dizer que seja algo ruim, às vezes gosto de me sentir assim, livre das amarras nas quais eu mesmo me atei no ofício complicado de conhecer pessoas).

(…)

Admito que mal conheço você, mas de certa forma sei que conheço. Gosto de você. Gosto daquilo que não conheço. Naquilo que me reconheço. Não tente entender (ninguém entende, só eu).* “

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Esse trecho foi escrito, para mim, por uma pessoa que estou deixando entrar e me conhecer um pouco mais.

Li e senti um arrepio trovejar minha serra dos órgãos, daqueles quando alguém nos descreve sem saber. Ele estava falando dele em relação a mim. Mas parece que estava falando de mim. Em relação a você. Sim, porque é assim que eu me sinto com você.

É estranho e bom. Como virar um pronome possessivo, por gosto de querer o ser.

Certeza não se explica.

“Quem disse que o estranho não pode ser digno de admiração?”. Eu admiro esse meu sentimento de não temer que você veja minha sombra no escuro. Sem enaltecer, sem altar, sem seres intocáveis.

É um sentimento bizarro e bizarro não é estranho só. Bizarro vem do italiano bizarro que denota aquilo que é: elegante, puro de caráter, gentil, generoso, digno de admiração, original.

E nosso. Quer dizer, não posso dizer que é nosso. Posso dizer que é meu. Sim, eu tenho um sentimento bizarro que é meu sobre o nosso que eu construí e re-construo de noite, “quando o sol dá a alma pra noite que vem”**…

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** Nós – Barão Vermelho

*trecho de uma carta dele, enviada só para mim

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tear

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Por mais que eu reclamasse, achava bonitinha sua loucura para me re-conquistar. Até aquele dia. Eu o levei ao nosso bar de sempre. Não nosso. Eu que te apresentei. Não que fosse meu. Isso não importa. Estávamos lá, com mais um casal. É lógico que lembraram de você, perguntaram, o assunto veio à tona. Ele, meio ciumento, não gostou, mas matamos o assunto ali. Até você aparecer. Do nada. Justamente naquela noite. Há anos você não ia lá. Os garçons sabiam, tentaram evitar, mas você foi até nossa mesa. Puxou uma cadeira, se sentou com a gente. Provocou-o. Quis provar que me sabia. Ele ficou irritado. Saiu sem dizer uma palavra. Eu te xingava e te batia, torcendo para que você ficasse longe e não me abraçasse. Ele voltou. Puxou o casaco pro lado e mostrou uma arma. Mandou você se afastar e nos ameaçou. Você, não menos louco, fez o mesmo. Por essa ele não esperava. Eu gelei. Vocês pareciam animais. Preocupados com a “vitória” e com a posse da razão sem sentido. Personagens de um filme triste. Solitários. Eu não queria fazer parte. Não fiz. Pavões e galos de briga nunca me atraíram.

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