Posts com tag “Devaneios

Dadinhos

.

Achei que era seu braço que se enlaçava no meu. Eu estava embaixo da mesa, brincando de não me esconder. De fingir que fujo. Para você não deixar. Me pede pra ficar. Me pede e eu vou dizer que não e, talvez, chore sentada no chão com as pernas encolhidas abraçada aos meus joelhos e, talvez, tente te afastar. Não deixe. Me segure firme para eu te [re]conhecer, saber quem você é e me permitir ser quem sou.

.

Anúncios

além das nuvens

.

Quase deixei mais da metade da pilha de louça suja por lavar para vir escrever. Bendito vício. Não por medo de esquecer, tenho uma memória, por vezes, maldita. Vim porque precisava dizer. Tenho urgências ansiosas. Ela não quer sempre ser a chata. Nem a forte. Nem a que não espera algo bom de alguém. Ela ouviu “você é minha consciência” e ficou feliz. Pois não fique, eu disse, não fique. De acordo com o “Menino de Ouro”, “deitamos mão ao que diz o povo e falamos sem pensar”. Ela questiona até os ditos populares. Eu digo a ela, é fuga. E ela me escuta? Não! E se propõe àquele papel, quando não pedem. Não pedem, mas ela ouve. Alertei, é loucura. Ninguém sabe o que ela sente. Nem mesmo eu. Vejo-a fazendo laços alheios e se perdendo em nós. Não posso gritar, nem te avisar, ela não deixa.

.


conjugação defectiva no tempo da memória

.

Assim que pus os pés no aeroporto, sabia que deveria ir comprar um vinho, antes mesmo de deixar as malas em casa. A noite não seria fácil. Quantas vezes quis que meu sexto sentido estivesse enganado. Não comprei o vinho e me senti impelida a não seguir o caminho em néon. Arisca? Irritante essa minha mania teimosa de não fugir do sentir e de querer ir até o fim. De subir no salto, como se não sentisse medo. De sentir falta da falta. De sentir falta do frio na barriga. Enquanto uma decepção me tornava menos crente, uma nova chance me assustava como não deveria. E eu só querendo ser livre com ele, justamente o alguém que tem medo de ficar sem algemas.

………………………….por medo da ausência que – todos nós – seremos e teremos,
………………………………..buscamos, na distância, a falta que nos move?

Descobrir a maldade babaca de uma peça solta da engrenagem que eu defendia, mesmo sob altas doses de irritação infligida, endurece e não há amor que surja do passado que amenize. Nem nada que enrouqueça a vontade de me arriscar no novo inusitado. Sim, eu pularia lá do alto com ele, sem proteção, sabendo que não significaria morte e sim vida. Adiantaria eu segurar a mão dele, desse alguém que eu quero e quero livre de amarras, e pedir: “pula comigo”? Entendo o temor, a cautela, a precaução, a dúvida entre o risco e o ganho, o pensar excessivo. Quem nunca?

Do outro lado, um outro alguém me estende a mão e me diz: “pula”. E eu não quero. Penso, re-penso, hesito.

O querer é estranho, complicado, encantador. Quero o que já tenho, o que conheço e que ainda me surpreende, o que admiro. Não quero o seguro sem emoção que vende a promessa de não deixar cicatrizes. Quero as mãos dadas que me dão uma alegria leve e leal, sem cobranças. O sorriso gostoso do desejo, sem jogos. Com alguém que não me dá certezas e que ainda assim me enche delas.

“Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho” *

Não me encaixo em sonhos. Mal me lembro deles. Tenho ojeriza a idealizações e razões sem sentido. Prefiro os pecados que podemos criar juntos, ainda que não tenham nome; fantasias que, se loucas, são nossas e só nossas; segredos sem sombras, não por devermos algo a alguém, mas por ninguém ter nada a ver com o que vivemos e somos, quando juntos.

“o presente foge, o passado volta e o futuro passa” **

Um pacto implícito, entre ele e suas pessoas, foi rompido. Ausência e falta, hoje, misturam-se num mundo sem paradas que ele criou, onde tempos verbais brigam e se perdem. Dele. No instante em que o imperfeito deixa de se presente, o gosto doce do pronome possessivo se torna amargo. Ele corre, alcança e não suspira. Satisfaz-se com excesso de controle e, ainda assim, não me engana: sim, eu acredito que ele saiba amar.

.

* Blues da Piedade, Cazuza e Frejat
** Nem Um Dia se Passa sem Notícias Suas – Daniela Pereira

.


Dos elos: Quintana estaria certo?

.

É estranho esse sentimento. A tentativa de proteção. O pseudo mistério. A ilusão. A transparência à revelia. Mais do que queria. Mais do que poderia. A impressão de que um letreiro em néon pisca indicando desejos, pecados, vontades. E medos. A tentativa de mostrar aos que importam que sim, que é – ou era – possível acreditar nas pessoas. O medo de ter chegado ao ponto de não conseguir mais acreditar. A observação. Das pessoas. Das brigas por atenção, por vaidade, por carência.  Das traições. Não relativas à fidelidade e sim à lealdade. Tudo e todos se tornaram dispensáveis? Da necessidade – doentia – de afirmação. De viver de comparação. A todo instante. A qualquer custo. A cumplicidade ficou esquecida? Um olhar cúmplice é tão bonito, tão intenso. Tão maior que tudo isso. E lá vem o lado “sentimentalóide” de novo. E a vontade de não querer. Não querer mais sentir. Não querer mais provar. Não querer mais arrumar desculpas. Não querer mais entender. Não querer mais confessar. A barreira era de mentirinha. Lacunas, brechas. Revelações sem pensar que poderia ser diferente. Sem querer acreditar que seria só mais uma luta perdida. Que seria só mais uma. Sem ouvir o que, lá no fundo, gritava. O saber não queria que fosse verdade. Havia fé. Como se não houvesse temor ao risco. Como se pudesse sempre se reerguer. E perdoar. Até uma hora em que as evidências atropelam, esbofeteiam a confiança. Não existe outro jeito, é preciso acordar. Por mais que o sonho pareça real.

.


Sinônimo sem sentido

.

Eu brinquei com o perigo, sobre a linha, sem considerar o luar. Era lua cheia. Ele se vestiu em mim e me levou. Eu não percebi. Ou não quis perceber. Os pensamentos, agora, estão obsessos. Eu, inquieta. Algo grita aqui dentro. Eu, que sempre procuro entender, compreendi. Um ser pensante, ébrio e não alienado mora aqui. Por mais que sonhe, por mais que rechace, ainda sente a realidade corroendo. No fundo, eu sabia. A cabeça fervilha, dói. Colapso. Mente e pele quentes. Eu não sinto. Eu quero. Eu sinto. Eu não quero. Falência do juízo, da negação, do personagem. Sem máscaras, sem filtros. Descompasso desconcertado de sensações, ao pulsar num compasso só. Posso até ouvir. Ah… a música. Não, não posso. Não ouço. Por que ela insiste em tocar dentro de mim? Sempre fui boa em fugas, menos nessa. Por quê?  Só sei que o errado não me assusta.

.

These Words I Write Keep Me From Total Madness #Buk

.


Entranha coraçonada

.

Alimento egos e mentes deturpadas. Distorço realidades. Crio doenças, taras e dependências. Sou a droga dos emocionalmente perturbados. Dos que só vertem elogios líquidos. Fantasio-me de coragem e sorrisos e te vicio. Tripudio. Despersonifico os que fogem para que aprendam, comam e cuspam. Dou vazão a medos e obsessões. Cobro. Cego. Mato. Confesso e, mesmo assim, você me deseja.

.


Just a little bit[e]

.

– Não foi isso que eu disse.

– Foi sim.

– Como você é teimosa. Vou começar a gravar agora.

– Gravar o quê?

– Nossas conversas, minha lerdinha.

– Me solta! Não sou lerda.

– Só quando quer.

[…]

– E não adianta fazer biquinho.

– Que biquinho? Não estou fazendo nada…

Está sim! […] Você sabe que te amo. Ainda mais assim, bravinha. Vem cá, vem…

– Que vem cá, que o quê?! Sai pra lá, senão te mordo.

– Hum… jura? Morde vai, morde que eu gamo ainda mais.

– Você é doido.

– E você é linda!

– Não adianta.

– Nem se eu chegar assim bem pertinho e te disser que […]? Tem certeza?

– Não… não tenho mais certeza de nada…

– Então, […] ?

– Uhun.

– Isso eu quero gravar, de verdade, e também vou […] !

[…]

– Ai, sua doida! Estava só te provocando! Ah, quando eu te pegar…

[…]

“Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Tem briga que aparece pra trazer sorriso”

Sonho de Uma Flauta – O Teatro Mágico


.