A viagem

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Um amigo, que a cada dia se torna mais querido, muito bem resumiu: “adoro tornar reais as loucuras minhas e alheias”.

A Mi fez isso: acreditou na minha bagunçada loucura gravada, às pressa no celular, em meio a curvas, crendices e delírios e tornou-a real.

Obrigada, Mirian!

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Lembro ainda hoje, assim como me lembrarei pela eternidade das eternidades, meu irmão berrar.

– Carlão! Carlão! – e daí ele largar sua bicicleta entre o meio fio da estrada e a própria estrada.

O carro que me atropelou parou, a mulher tremia.

– Eu não o vi… – gaguejava ela, soluçante. Naquela curva ninguém via ninguém e, pelo jeito, ela devia estar brigando com os dois pivetes que olhavam assustados pela janela traseira do carro.

Eu quis ficar para ver o que aconteceria, já que aconteceu, nada como ver o que os outros vão fazer sem você estar por ali. Aliás, estando, mas não estando.

É um porre, vou dizer! Tudo demora muito. Muito mais que uma eternidade. Porque eternidade você sabe o que é, mas quando se espera uma coisa o mais rápido possível, esse mais rápido possível é uma eternidade dolorida, sufocante, impotente.

Meu irmão chorava, mal conseguia ligar para minha mãe, dizendo que achava que eu tinha morrido na estrada. Para falar a verdade, a mulher quase não tinha culpa, porque eu estava falando no celular enquanto pedalava pela estrada e devo ter entrado na frente da coitada e ela vai ter que entrar num processo por um crime culposo – ela não tem culpa, mas matou. Culposo… Por que advogado complica as coisas? Se ela tem culpa é culposo. Mas daí fiquei sabendo que tem o doloso, que é aquele que a pessoa teve intenção de provocar o crime, o assassinato, o tal dolo. Imagina! Aquele doce de mulher querer me matar, justo eu, que nem conhecia a pobre coitada, que brigava com aqueles dois pivetes! Se fosse ela matava aqueles dois, isso sim!

Falando nisso, nessa eternidade eterna, conheci a Joaninha. Bom, eu a chamo de Joaninha porque ela não lembra o nome dela direito. Morreu quando tinha os seus dois anos. Tá lá a sua cruz com uma fitinha branca. Ainda chupa o dedo esperando a mamãe. Mas a mãe ela subiu tão logo morreu. Joaninha, criança que era, não viu e não foi atrás. Ficou aturdida e, me vendo, veio chorando querendo a mamãe.  Então, normalmente ficamos nós dois olhando os carros passarem apressados, as bicicletas ainda bambeando porque os moleques ainda cismam em ficar falando em seus celulares. Já vi até meu irmão passando por aqui outro dia – bem mais velho! Fiquei sabendo que se casou, finalmente, com a Cristina, aquela gostosona. Ainda bem que estou morto, porque senão ele me mataria com um comentário desses.

Outro dia passou um caminhão da Coca- Cola. Joaninha disse “Coca”! Eu fiquei feliz da vida! É… porque além de mamãe, ela só falava o meu nome e mais nada. Sabe, acho que fica desses traumas… Agora também fala Coca. Quem sabe, se andarmos por aí ela descobre alguma outra palavra perdida de seu parco vocabulário.

Conheci também a Lídia. Essa era uma puta. Daquelas! Só que o caminhão não viu. Ela morre – redundância idiota – de ódio por conta disso. Como é que um caminhão não consegue reconhecer uma prostituta? Pior! Passa, mata e vai embora! Nem viu!

Bom, eu acho que ele iria morrer, senão naquela noite mesmo, talvez noutra, porque ele devia estar quase dormindo, o coitado.

Mas aqui tudo é muito calmo, talvez uma réplica de um paraíso feito especialmente para a gente ficar aqui na terra enquanto  não aparece outra chance da gente subir, sei lá para onde. Lá embaixo tem alguma coisa messiânica, que nunca me interessou, mas, sinceramente, não gostaria de levar Joaninha e Lídia num lugar como esses. Sei lá se eles nos achariam seres do mal ou como resposta de uma vinda de paraíso messiânico… São coisas que passam pela minha cabeça…

Eternidade é coisa boa… Dá para pensar em tanta coisa… Mas às vezes cansa. Lídia saiu agora com Joaninha. Foram para a floresta procurar algum brinquedinho que talvez fosse de Joaninha. Já fizeram isso milhões de vezes e nunca acharam nada.

É… Eternidade é um porre.

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13 Respostas

  1. Tem certos prazeres que a gente é que agradece – este é um deles. Sou eu quem agradeço essa oportunidade de entrar no seu espaço e na sua imaginação.

    beijocas, Menina.

    12/09/2011 às 11:37

    • Menina Misteriosa

      Mi, minha imaginação é quase tão – ou mais – arisca que eu. Poucos, como você, tem esse dom.
      De novo, obrigada.
      Beijo

      12/09/2011 às 14:48

  2. Fiquei pensando na cor da fita da cruz da Lídia.

    12/09/2011 às 11:52

    • Menina Misteriosa

      e… qual seu palpite, Gustavão?

      12/09/2011 às 14:51

  3. E o tempo que demora regressar da eternidade? Você sabe quanto? Sabe porque não sabe? porque esse tempo é maior até que eternidade. Esse também é um…porre. Se é!

    12/09/2011 às 11:58

    • Menina Misteriosa

      Vítor, o tempo ou a falta dele? Ele, na eternidade e a falta dele, no caminho, digamos, transitório?

      Seja bem vindo… espero que venha me visitar mais vezes.

      Um beijo

      12/09/2011 às 14:53

  4. Eu adoro quando o assunto é o “lado de lá”. Acredito sinceramente que tenha muito do que narrou por lá. Acredito que nossos pensamentos se transformam com o tempo. E esse tempo pode demorar. Mesmo por lá.

    Ficou muito bom.

    Daniel

    13/09/2011 às 15:29

    • Menina Misteriosa

      Daniel, confesso que também gosto.
      A gravação que eu fiz foi do lado de cá, com interferência do de lá, ou foi sobre a passagem, não sei ao certo. E a Mirian soube, como ninguém, sentir o que eu percebi…

      A Mi arrasa, né?

      Beijo

      15/09/2011 às 12:44

  5. Sisa

    Meu choque maior é de saber que a Mi e a Menina Misterios se conhecem… mundo pequeno, hein? Tenho foto com a Mi e tudo! Beijo nas duas!

    15/09/2011 às 22:07

    • Menina Misteriosa

      Um ovo de codorna, Sisa!
      Mas, nesse caso, elos e coincidências muito bons e bem vindos. Duas queridas. =)

      Já estou imaginando nós três juntas, em SP! [Mi, te explico por email!]

      Beijos. Dois.

      16/09/2011 às 09:35

    • Ainda bem que o mundo é pequeno! Dá para gente conhecer muuuuita gente! :)

      17/09/2011 às 18:11

  6. Alberto

    Lu, você escreve muito bem! Deveria ter me participado antes tenho mais experiência e umas boas décadas de casos para te contar. Não fique chateada pela foto, muito em breve todos esquecem. Sueli manda lembranças e quer saber quando vem nos visitar. A Ana já me passou o email novo.

    Alberto.

    16/09/2011 às 08:13

    • Menina Misteriosa

      Ô, Seu Alberto, muito obrigada!
      Não demoro a ir aí, vamos sentar na varanda do escritório do Sr e quero ouvir, sim, todos os casos.

      Mande um beijo pra Dona Sueli.

      O resto converso com o Sr fora daqui do blog, tá?

      16/09/2011 às 09:37

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