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a moça que escreve sem roupa

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‎”Tentar dar o troco achando que não vai se machucar em dobro mais tarde é burrice.”*

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Não tem era uma vez. Apesar de viver de passado. Joga migalhas circenses para delas se alimentar. Sempre preterida, esnoba um falso ego mascarado de virtude. Camaleia-se por tecos de atenção, vende mais do que alma. Mira a vítima e suga seus ídolos, gostos, quereres. Transforma-se. Despersonaliza-se. A cada novo alvo, outra. Na falta de graça, doa o corpo. Exige do outro o que não oferece nem a si mesma. Grita garbo, elegância e concordância para esconder a falta de caráter. Expatriada, respira lembranças inventadas. Amaldiçoa os que levam a bênção de nunca terem sido. Cuspiu seu veneno em minha direção. Troco? Não precisei fazer nada. Secou sozinha, retorcida pelo ciúme e pela amargura.

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*atribuem essa frase à Buk. não achei a original para confirmar

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da audácia da chuva. sem pressa do sol.

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Se a dor do não vivido é mais amarga quando ainda se tem a chance, mas percebe-se que o momento passou e não há resgate que dê jeito, eu não sei. Sei do buraco que senti.

Teremos 90 anos e ainda a mesma cumplicidade. Foi o tempo do beijo que passou. O desejo se transformou, de tanto ficar guardado.

Difícil ter uma conversa dessas, ainda mais na fila do check in internacional. Difícil saber que nos encontraremos de novo só daqui a quinze dias. Sufocante lidar com o medo de que ele se afaste pela minha escolha do não. Água salgada nenhuma conseguiu reduzir a ansiedade: “como será quando ele voltar?” “será que o orgulho ferido fará com que nos percamos, de novo, um do outro?”.

Até quando a consciência pesada dessa fase cafinha vai me perseguir?

Notícias já vieram do além mar. Com elas, a esperança de que chegaremos, seja como for, até o fim. Com a provocação sadia que tanto nos alegra, nos irrita e nos faz falta.

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nesse turbilhão, a descoberta
de amiga que me vende com amor
de amigo não “contável”
e da alergia à lágrima ácida
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Fui vendida por alguns chocolates suíços e duas taças de um bom vinho. Já nem me interessa saber se a da piscina vai colar lá ou não. De coincidências macabras aquele conjunto está cheio. A distância inclui show virado e convite culpado. Pior do que pedir ajuda é ser mal interpretada.

Tenho mania de manias e uma delas é me explicar demais. Pela irritação dos mal entendidos. Só que existe um limite. Certos desentendimentos não merecem nem a saliva gasta.

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Medo de amar – Adriana Calcanhoto

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tear

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Por mais que eu reclamasse, achava bonitinha sua loucura para me re-conquistar. Até aquele dia. Eu o levei ao nosso bar de sempre. Não nosso. Eu que te apresentei. Não que fosse meu. Isso não importa. Estávamos lá, com mais um casal. É lógico que lembraram de você, perguntaram, o assunto veio à tona. Ele, meio ciumento, não gostou, mas matamos o assunto ali. Até você aparecer. Do nada. Justamente naquela noite. Há anos você não ia lá. Os garçons sabiam, tentaram evitar, mas você foi até nossa mesa. Puxou uma cadeira, se sentou com a gente. Provocou-o. Quis provar que me sabia. Ele ficou irritado. Saiu sem dizer uma palavra. Eu te xingava e te batia, torcendo para que você ficasse longe e não me abraçasse. Ele voltou. Puxou o casaco pro lado e mostrou uma arma. Mandou você se afastar e nos ameaçou. Você, não menos louco, fez o mesmo. Por essa ele não esperava. Eu gelei. Vocês pareciam animais. Preocupados com a “vitória” e com a posse da razão sem sentido. Personagens de um filme triste. Solitários. Eu não queria fazer parte. Não fiz. Pavões e galos de briga nunca me atraíram.

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eu conheço seus cantos, eu te conto pelos contos

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Para me envidar e provar a mim mesma que estava errada tentei namorá-lo. Até que o cheiro nauseante dele me convenceu do contrário. Não, não era o perfume. Ele mudou. Não adiantou.

Como lembranças e gosto, meus relacionamentos se guiam pelo cheiro.

O último exalava flores. O aroma da magnólia era um convite. O da ageratum purificou e limpou odores passados. As acácias e miosótis trouxeram o amor e a fidelidade. Nunca mais senti um ciclame, vocês sabem, símbolo olente do ciúme. Vivíamos com o reconhecimento das dálias, com o amor das acácias, com a superação das petúnias, com a tranquilidade das violetas.

Até que, sem uma flor de lis se quer, ele me deu um copo de leite.

Sem ele, perdi o faro, meu olfato ficou confuso, sujo, viciado.

Como o hálito do fogo que compromete o que lambe, o dele impregnou-se em tudo. Assim eu pensava.

Hoje, entendi que ele está em mim. Infiltrado em cada poro, em minhas entranhas. É o meu cheiro que me lembra dele. O cheiro da minha pele, do meu suor, do meu sangue.

Como os cactos, minhas folhas e pétalas reduziram-se a espinhos que, além de afastar predadores, rasgam minha pele e me tornam uma flor sem perfume. Não amo mais. Não sei o que é paladar. Não tenho prazer. Mas ainda me lembro dele.

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para você, que provocou a inspiração.

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Dos elos: Quintana estaria certo?

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É estranho esse sentimento. A tentativa de proteção. O pseudo mistério. A ilusão. A transparência à revelia. Mais do que queria. Mais do que poderia. A impressão de que um letreiro em néon pisca indicando desejos, pecados, vontades. E medos. A tentativa de mostrar aos que importam que sim, que é – ou era – possível acreditar nas pessoas. O medo de ter chegado ao ponto de não conseguir mais acreditar. A observação. Das pessoas. Das brigas por atenção, por vaidade, por carência.  Das traições. Não relativas à fidelidade e sim à lealdade. Tudo e todos se tornaram dispensáveis? Da necessidade – doentia – de afirmação. De viver de comparação. A todo instante. A qualquer custo. A cumplicidade ficou esquecida? Um olhar cúmplice é tão bonito, tão intenso. Tão maior que tudo isso. E lá vem o lado “sentimentalóide” de novo. E a vontade de não querer. Não querer mais sentir. Não querer mais provar. Não querer mais arrumar desculpas. Não querer mais entender. Não querer mais confessar. A barreira era de mentirinha. Lacunas, brechas. Revelações sem pensar que poderia ser diferente. Sem querer acreditar que seria só mais uma luta perdida. Que seria só mais uma. Sem ouvir o que, lá no fundo, gritava. O saber não queria que fosse verdade. Havia fé. Como se não houvesse temor ao risco. Como se pudesse sempre se reerguer. E perdoar. Até uma hora em que as evidências atropelam, esbofeteiam a confiança. Não existe outro jeito, é preciso acordar. Por mais que o sonho pareça real.

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E ela ainda diz que a doida sou eu!

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Brincavam de pique-esconde no recreio. Ele conhecia bem o colégio, judiava e a deixava desorientadinha tentando achá-lo. Só aparecia depois de se divertir bastante. Mas, na visão dela, ele sempre surgia como o herói que a ‘salvava’. E deu nisso: a imaginação mandou, ela se apaixonou e o que era brincadeira virou obsessão.

Para vigiá-lo, por mais que quisesse algo diferente, fez o mesmo curso que ele, na mesma faculdade. Depois, sugeriu abrirem um negócio juntos e, assim, trabalham e vivem até hoje, morando, não juntos, mas bem perto.

Não que essa proximidade toda adiantasse. Ele sempre estava acompanhado; uma mulher atrás da outra, quando não as tinha ao mesmo tempo.

A cada nova namorada, ela surtava. Ficava de tocaia, imaginando eles se tocando, se beijando. Gemia e se torturava com as cenas – do que poderia estar acontecendo – que passavam à sua frente, como um filme.

Ela não namorava, não tinha vida própria. Persegui-lo consumia muito tempo. Depois das (ou durante as) espreitadas bem sucedidas, pagava pelo sexo e se esbaldava ao pensar nele, sozinho. Não é nefasta, nem feia, nem mal amada. Recusava pretendentes, porque só ele lhe interessava.

Um dia, ela resolveu ‘experimentar’ o dito. Convidou-o pra jantar, na casa dela. Ele nunca foi difícil. E, durante esse tempo todo, ela sabia que seria moleza. Mão nisso, aquilo na mão, pernas, posições trocadas. Nada. Nem as variações, nem o básico a agradaram. Tentou bater, apanhar e tudo mais. Imagine o que quiser; eles tentaram. E nada.

Achou que estava curada. Começou outro relacionamento e nada. E mais outro. E outro. Tentou  até com as namoradas e affairs dele. E nada. Nem uma gozadinha sequer.

Mas no dia em que conseguiu desviar a atenção dele, que estava voltada para uma vagabunda da mesa ao lado, gozou ali mesmo, no bar.

A excitação vinha do controle, da perseguição. E não de tê-lo ou estar com ele. Ele não podia ser de ninguém. Nem dela. Gostava do sofrimento, do amor platônico, do inatingível. E dos homens que se submetiam à loucura e topavam acompanhá-la nesse jogo doentio.

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Entranha coraçonada

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Alimento egos e mentes deturpadas. Distorço realidades. Crio doenças, taras e dependências. Sou a droga dos emocionalmente perturbados. Dos que só vertem elogios líquidos. Fantasio-me de coragem e sorrisos e te vicio. Tripudio. Despersonifico os que fogem para que aprendam, comam e cuspam. Dou vazão a medos e obsessões. Cobro. Cego. Mato. Confesso e, mesmo assim, você me deseja.

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