Posts com tag “Fragmentos

a moça que escreve sem roupa

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‎”Tentar dar o troco achando que não vai se machucar em dobro mais tarde é burrice.”*

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Não tem era uma vez. Apesar de viver de passado. Joga migalhas circenses para delas se alimentar. Sempre preterida, esnoba um falso ego mascarado de virtude. Camaleia-se por tecos de atenção, vende mais do que alma. Mira a vítima e suga seus ídolos, gostos, quereres. Transforma-se. Despersonaliza-se. A cada novo alvo, outra. Na falta de graça, doa o corpo. Exige do outro o que não oferece nem a si mesma. Grita garbo, elegância e concordância para esconder a falta de caráter. Expatriada, respira lembranças inventadas. Amaldiçoa os que levam a bênção de nunca terem sido. Cuspiu seu veneno em minha direção. Troco? Não precisei fazer nada. Secou sozinha, retorcida pelo ciúme e pela amargura.

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*atribuem essa frase à Buk. não achei a original para confirmar

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Jardim inchado de silêncio *

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foto: arquivo pessoal

“… tempo, essa volúpia de fazer sumir sem trégua…”
Carlos Nejar

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Minha mania de contar esquinas se perdeu de você. Quantas, só hoje, dobraram seu caminho?

Daqui, consigo ainda imaginá-la. Com um sapatinho boneca sem salto, cabelo solto e meio molhado, vestidinho leve, sacola de compras. A vontade que me dá, hoje, de ter aproveitado, no ontem, esses passeios contigo me consome. Nunca fui. Controlava seu trajeto, engaiolava seu tempo. Sentia-me seguro na insegurança que te impingia.

Fiz nossa relação encruzilhar-se com a vida. Sem te dar opção.

Foi numa esquina que de mim você se desvencilhou.

Aquele dia não seria de mercado. Embora eu precisasse de tanta coisa! A lista que eu havia feito ficou sobre a cômoda, ao lado da chave. A sacola nem saiu do armário. Eu não reparei. Tão cega era minha certeza desleixada.

Você andou à revelia, suponho. Talvez, tenha comprado um livro e com ele sentado-se em um café não muito longe de casa. Sua atenção insistia em desviar-se da ficção, sem controle. Era vida que você buscava. Desde o começo. Meu medo sempre foi que você a encontrasse. Quase posso sentir o momento do trincar: você percebeu a redoma que minha obsessão medrosa transvestida de amor criou para te sufocar e decidiu-se. Nem pedaço sobrou.

Um longo suspiro, como o que deve ter selado sua liberdade, sela hoje minha prisão. Esforço-me para sentir um traço ainda que longínquo do seu perfume pela casa, nas roupas que ainda são suas, mas já não te vestem. Encontro-o, embaçado, sujo e confuso lá nos fundos. No seu jardim. A única parte da casa que era sua e só sua. Você cuidava dele como cuidava de mim e eu nunca aceitei te dividir; convidava-me a fazer parte dele e eu nunca quis. Estava ocupado demais em nunca te perder.

Hoje, seu jardim é minha casa. Cuido dele como, antes, não cuidei de você. As flores e até frutos, quem diria!, retribuem meu carinho ao te trazerem de volta para mim em forma de cor, cheiro, sabor. Até a textura aveludada da sua pele consigo sentir em cada pétala que toco. Tuas palavras antes tão abundantes e nunca ouvidas escureceram-se, enterraram-se aqui e por mim são veladas.

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* Texto originalmente publicado na Confraria de verão.

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Por redução ao absurdo*: sátiro ou pobre palhaço erudito devoluto e estranho

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tem tanto meu em tudo
que ele não admite
e eu
nem preciso fingir
nada parece o que é
mas tem a música, o livro
menos troféus
é pedir muito?
e esses pronomes possessivos
in-trínsicos-transferíveis
a minha na sua
a sua em mim
tão impessoais
indefinidos
singulares em número e verbos
plurais em vontades e números
e versos
pedintes
não vejo, não peço
peco
e observo
de longe
cada vez, mais longe

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* prova da falsidade, ao obter uma consequência lógica absurda. é um procedimento matemático, mas se assemelha à ironia, método predileto do satirista.

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Dadinhos

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Achei que era seu braço que se enlaçava no meu. Eu estava embaixo da mesa, brincando de não me esconder. De fingir que fujo. Para você não deixar. Me pede pra ficar. Me pede e eu vou dizer que não e, talvez, chore sentada no chão com as pernas encolhidas abraçada aos meus joelhos e, talvez, tente te afastar. Não deixe. Me segure firme para eu te [re]conhecer, saber quem você é e me permitir ser quem sou.

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além das nuvens

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Quase deixei mais da metade da pilha de louça suja por lavar para vir escrever. Bendito vício. Não por medo de esquecer, tenho uma memória, por vezes, maldita. Vim porque precisava dizer. Tenho urgências ansiosas. Ela não quer sempre ser a chata. Nem a forte. Nem a que não espera algo bom de alguém. Ela ouviu “você é minha consciência” e ficou feliz. Pois não fique, eu disse, não fique. De acordo com o “Menino de Ouro”, “deitamos mão ao que diz o povo e falamos sem pensar”. Ela questiona até os ditos populares. Eu digo a ela, é fuga. E ela me escuta? Não! E se propõe àquele papel, quando não pedem. Não pedem, mas ela ouve. Alertei, é loucura. Ninguém sabe o que ela sente. Nem mesmo eu. Vejo-a fazendo laços alheios e se perdendo em nós. Não posso gritar, nem te avisar, ela não deixa.

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pior é que já

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Era besteira, confesso. Era besteira o que eu estava pensando assim que parei de correr. A música me lembrou a arte de cozinhar e me deixei levar por alguns segundos. Quase ninguém sorri como você, você corre sorrindo. Não, não se assuste. Me desculpe chegar assim. Anda um pouco comigo? Eu sei, mas você me parece rápida e é nova. E ainda tem sol. Vem e eu me apresento propriamente. Não sei bem porque fui. Mal ele não iria me fazer. Era uma versão feminina da senhorinha do terço. Só que mais forte. Magrinho e forte. Com fôlego de ex militar. As plaquinhas penduradas no pescoço não negavam. Fora a dificuldade para levantar as pernas, andava quase arrastando-as, ainda tinha disposição. Meu filho vai gostar de você, tenho certeza. Não ria, não, não vá embora, é sério.  Não venho aqui caçar pelo meu filho, foi coincidência. Acredita em coincidências? Nessa hora, tantas lembranças se misturaram, que perdi o começo do caso que ele contava tão compenetrado. Só por isso ele não está aqui hoje. Essa fase da farra é de doer e não combina com ele. Certeza que chegará mais sozinho dessa viagem do que antes. Ele precisa de alguém que sorria como você e que dê atenção a velhos loucos na pista de cooper. Não gostava da minha ex nora, se é que posso chamar assim a ex namorada dele, uma interesseira metida arrogante fingida de marca maior. Conheço o tipo de longe. Claro que não durou muito. Ele nem sofreria, não por ela, mas ele ama amar. Até quem não deveria. Puxou isso de mim. Sim, eu me culpo por essa mania que ele tem de sofrer e perder seu tempo com quem não merece. Você não é casada, é?  Reparei que não usa aliança. Se bem que poderia vir correr sem ela, isso me veio à mente; fiquei na dúvida, pois está de brincos, mas imagino que eles não devam incomodar tanto quanto anéis. Eu não me afasto de minhas correntes, por mais barulhentas que sejam quando ando. É ou não? Casada, eu digo. O momento de espanto dele, que quase sempre me persegue, alguns o sabem. Estará aqui no final de semana que vem? Virei com ele, só para podermos te ver, se não se importar. Você é rara, menina, uma verdadeira fidalga, alguém já te disse isso?

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Anagrama

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Perto do meu colégio, havia uma “Clínica da Alergia”. Eu, criança afoita, li alegria e fiquei toda animadinha. Minha mãe – que deve ter tido muita vontade de rir da minha cara – me explicou significados e diferenças.

Fui para casa inconformada e decidida a não deixar uma letrinha fora do lugar me vencer. 

Há pouco tempo, a clínica fechou. No lugar dela, abriram um boteco bonito, convidativo. Eu, agora uma mulher feita, não fiquei triste. Este bar bem que pode ser a nova “Clínica da Alegria”. De um jeito ou de outro, ainda acredito.

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Esse ‘conto’ tem uma versão alternativa, bem diferente e mais perversa. 

…quem sabe um dia…

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