Posts com tag “Meus mistérios – desvendados?

Dadinhos

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Achei que era seu braço que se enlaçava no meu. Eu estava embaixo da mesa, brincando de não me esconder. De fingir que fujo. Para você não deixar. Me pede pra ficar. Me pede e eu vou dizer que não e, talvez, chore sentada no chão com as pernas encolhidas abraçada aos meus joelhos e, talvez, tente te afastar. Não deixe. Me segure firme para eu te [re]conhecer, saber quem você é e me permitir ser quem sou.

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além das nuvens

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Quase deixei mais da metade da pilha de louça suja por lavar para vir escrever. Bendito vício. Não por medo de esquecer, tenho uma memória, por vezes, maldita. Vim porque precisava dizer. Tenho urgências ansiosas. Ela não quer sempre ser a chata. Nem a forte. Nem a que não espera algo bom de alguém. Ela ouviu “você é minha consciência” e ficou feliz. Pois não fique, eu disse, não fique. De acordo com o “Menino de Ouro”, “deitamos mão ao que diz o povo e falamos sem pensar”. Ela questiona até os ditos populares. Eu digo a ela, é fuga. E ela me escuta? Não! E se propõe àquele papel, quando não pedem. Não pedem, mas ela ouve. Alertei, é loucura. Ninguém sabe o que ela sente. Nem mesmo eu. Vejo-a fazendo laços alheios e se perdendo em nós. Não posso gritar, nem te avisar, ela não deixa.

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pior é que já

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Era besteira, confesso. Era besteira o que eu estava pensando assim que parei de correr. A música me lembrou a arte de cozinhar e me deixei levar por alguns segundos. Quase ninguém sorri como você, você corre sorrindo. Não, não se assuste. Me desculpe chegar assim. Anda um pouco comigo? Eu sei, mas você me parece rápida e é nova. E ainda tem sol. Vem e eu me apresento propriamente. Não sei bem porque fui. Mal ele não iria me fazer. Era uma versão feminina da senhorinha do terço. Só que mais forte. Magrinho e forte. Com fôlego de ex militar. As plaquinhas penduradas no pescoço não negavam. Fora a dificuldade para levantar as pernas, andava quase arrastando-as, ainda tinha disposição. Meu filho vai gostar de você, tenho certeza. Não ria, não, não vá embora, é sério.  Não venho aqui caçar pelo meu filho, foi coincidência. Acredita em coincidências? Nessa hora, tantas lembranças se misturaram, que perdi o começo do caso que ele contava tão compenetrado. Só por isso ele não está aqui hoje. Essa fase da farra é de doer e não combina com ele. Certeza que chegará mais sozinho dessa viagem do que antes. Ele precisa de alguém que sorria como você e que dê atenção a velhos loucos na pista de cooper. Não gostava da minha ex nora, se é que posso chamar assim a ex namorada dele, uma interesseira metida arrogante fingida de marca maior. Conheço o tipo de longe. Claro que não durou muito. Ele nem sofreria, não por ela, mas ele ama amar. Até quem não deveria. Puxou isso de mim. Sim, eu me culpo por essa mania que ele tem de sofrer e perder seu tempo com quem não merece. Você não é casada, é?  Reparei que não usa aliança. Se bem que poderia vir correr sem ela, isso me veio à mente; fiquei na dúvida, pois está de brincos, mas imagino que eles não devam incomodar tanto quanto anéis. Eu não me afasto de minhas correntes, por mais barulhentas que sejam quando ando. É ou não? Casada, eu digo. O momento de espanto dele, que quase sempre me persegue, alguns o sabem. Estará aqui no final de semana que vem? Virei com ele, só para podermos te ver, se não se importar. Você é rara, menina, uma verdadeira fidalga, alguém já te disse isso?

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Anagrama

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Perto do meu colégio, havia uma “Clínica da Alergia”. Eu, criança afoita, li alegria e fiquei toda animadinha. Minha mãe – que deve ter tido muita vontade de rir da minha cara – me explicou significados e diferenças.

Fui para casa inconformada e decidida a não deixar uma letrinha fora do lugar me vencer. 

Há pouco tempo, a clínica fechou. No lugar dela, abriram um boteco bonito, convidativo. Eu, agora uma mulher feita, não fiquei triste. Este bar bem que pode ser a nova “Clínica da Alegria”. De um jeito ou de outro, ainda acredito.

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Esse ‘conto’ tem uma versão alternativa, bem diferente e mais perversa. 

…quem sabe um dia…

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da audácia da chuva. sem pressa do sol.

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Se a dor do não vivido é mais amarga quando ainda se tem a chance, mas percebe-se que o momento passou e não há resgate que dê jeito, eu não sei. Sei do buraco que senti.

Teremos 90 anos e ainda a mesma cumplicidade. Foi o tempo do beijo que passou. O desejo se transformou, de tanto ficar guardado.

Difícil ter uma conversa dessas, ainda mais na fila do check in internacional. Difícil saber que nos encontraremos de novo só daqui a quinze dias. Sufocante lidar com o medo de que ele se afaste pela minha escolha do não. Água salgada nenhuma conseguiu reduzir a ansiedade: “como será quando ele voltar?” “será que o orgulho ferido fará com que nos percamos, de novo, um do outro?”.

Até quando a consciência pesada dessa fase cafinha vai me perseguir?

Notícias já vieram do além mar. Com elas, a esperança de que chegaremos, seja como for, até o fim. Com a provocação sadia que tanto nos alegra, nos irrita e nos faz falta.

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nesse turbilhão, a descoberta
de amiga que me vende com amor
de amigo não “contável”
e da alergia à lágrima ácida
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Fui vendida por alguns chocolates suíços e duas taças de um bom vinho. Já nem me interessa saber se a da piscina vai colar lá ou não. De coincidências macabras aquele conjunto está cheio. A distância inclui show virado e convite culpado. Pior do que pedir ajuda é ser mal interpretada.

Tenho mania de manias e uma delas é me explicar demais. Pela irritação dos mal entendidos. Só que existe um limite. Certos desentendimentos não merecem nem a saliva gasta.

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Medo de amar – Adriana Calcanhoto

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Guaranteed: o início depois do fim

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Dele me lembro do abraço quente. Do beijo que não deixei que me roubasse. Das flores criminosas. Da vulnerabilidade dividida. Da lealdade. Das mãos dadas. Da paixão sufocada. Da sensação de beber o vinho no gargalo, no meio da rua.

Dele me lembro dos desencontros. Das vontades intensas fora de hora. Dos sorrisos sem graça em companhias alheias ao nosso mundo.

Dele me lembrarei da surpresa de agora. Da descoberta do desejo ainda pulsante.

Da sintonia ainda viva: “Foi exatamente isso que eu pensei. Se não aproveitarmos essa sensação agora, não teremos outra chance, pelo menos, não nessa vida”

Dele sei que as lembranças com ele estão só começando a serem construídas.

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Such is the way of the world…..
You can never know…..

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Epifania

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Se eu revelasse o assunto do email que gerou tudo isso, ninguém acreditaria.

A brincadeira foi ganhando forma aqui dentro. Não quis mais ficar só na cabeça. Tomou o corpo e quis sair. Com bem mais que uma mera pretensão de acontecer.

Seria uma experiência até simples. Mas só de imaginar fiquei desconcertada. Tem épocas – para não ser deselegante e dizer que é quase sempre – em que os desejos ficam à flor da pele. O que estou vivendo – mudanças, vontade incessante e incontrolável de experimentar e provocar, entrega, fantasias se tornando reais – contribuiu para a empolgação. E o destino certo, claro. Melhor do que a simplicidade da ideia é quase poder sentir o furor do alguém que vai receber.

A concentração no trabalho já estava perdida mesmo, então, fui embora para colocar a doideira em prática, antes que eu pensasse melhor e desistisse. Ou pior, antes que tivesse mais ideias como essa.

Enquanto me deliciava com o devaneio, em meio a cada vez mais desatinos, lembrei-me de algo que li ou ouvi, não sei ao certo onde:

“Just my own naked self and the stars breathing down, it’s beautiful.”

Deu tempo de desviar do caminho de casa. Fui para onde eu pudesse fazer tudo, exatamente como sonhei acordada. Queria fazer sozinha. Sem ajuda, sem plateia. O gostinho surpresa seria melhor.

“Existiam duas mulheres dentro de Lavínia. Uma usava um dedo de pintura e muita lascívia. Trepava de um jeito atrevido, como se estivesse punindo a outra, a Lavínia mansa, assustada com o mundo.” *

Não me contentei em capturar só o desfecho. Fui, já no carro, narrando tudo o que acontecia comigo. A descrição de certos detalhes é excitante.

“O detalhe é a alma de toda a fantasia. Qualquer detalhe, por mais inusitado ou pervertido que seja. Daí os fetiches. A particularidade do desejo. E um detalhe pode tornar-se muitas vezes mais excitante que a própria fantasia.” *

O calor só aumentava. Descrevi o lugar, a noite, o céu, meu corpo, as sensações. Meus pensamentos. As mãos. A grama molhada. A cadência da vontade. Crescente. E mais. E mais.

“Quem me contava isso era a Lavínia doida, não a puritana. Uma falava da outra na terceira pessoa. E eu adoeci daquela mulher. Contraí o vírus da sua insensatez.” *

Eu queria mais.

“Era intenso demais para ser só um jogo”. *

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– Posso gritar?

– Pode. Grava e (me) manda.

– Ah, sem graça. Se for pra mandar, tem coisa melhor…

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* trechos do livro
“Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”,
Marçal Aquino

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