Arquivo para agosto, 2010

Sinônimo sem sentido

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Eu brinquei com o perigo, sobre a linha, sem considerar o luar. Era lua cheia. Ele se vestiu em mim e me levou. Eu não percebi. Ou não quis perceber. Os pensamentos, agora, estão obsessos. Eu, inquieta. Algo grita aqui dentro. Eu, que sempre procuro entender, compreendi. Um ser pensante, ébrio e não alienado mora aqui. Por mais que sonhe, por mais que rechace, ainda sente a realidade corroendo. No fundo, eu sabia. A cabeça fervilha, dói. Colapso. Mente e pele quentes. Eu não sinto. Eu quero. Eu sinto. Eu não quero. Falência do juízo, da negação, do personagem. Sem máscaras, sem filtros. Descompasso desconcertado de sensações, ao pulsar num compasso só. Posso até ouvir. Ah… a música. Não, não posso. Não ouço. Por que ela insiste em tocar dentro de mim? Sempre fui boa em fugas, menos nessa. Por quê?  Só sei que o errado não me assusta.

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These Words I Write Keep Me From Total Madness #Buk

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Do lado ‘Esquerdo’ da rua Direita

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[…]

Foi ou não foi? Êta passado que me cavouca a imaginação! Quando menos espero, lá venho eu falar de reminiscências e avoo até onde minha saudade alcança.

[…]

Meu pobre pai, que Deus o tenha, morreu sem me contar um segredo. Pois tais segredos, quando se trata de amor, competem unicamente ao cofre forte do coração de quem de direito.

Eu já tinha ido àquela casa. Sobrado sito no centro, andar sobreloja, que um dia alojou, no térreo, uma loja onde se vendia material para iluminar. Era uma loja famosa que o tempo engoliu, sem vontade. Inda me lembro, olhos anuviados, de quando seu dono […] esfregava a barriga no balcão, atendendo a todos com uma cordialidade ímpar, sem logro, sem espichar o elástico para medir mais.

Quando da primeira vez visitei aquela morada antiga, onde agora mora a viúva – uma pessoinha refinadamente educada, coisa que hoje não se vê mais -, […] veio-me à cabeça uma dúvida: ‘foi ou não foi?’

Véspera de Tiradentes, fui de novo visitar a velha casa assobradada. […] Assentamo-nos à mesa do café, ao lado de um filho e uma nora, simpáticos como a mãe e sogra. Conversamos amenidades. Durante a conversa saudosa, a senhorinha de fala mansa, religiosamente educada, falou, como fala uma cotovia, de quando ela e meu pai cantavam no coro da Igreja Matriz.

[…]

A prosa durou mais que o previsto. E como foi uma prosa boa! Mas saí daquela casa assobradada com a mesma dúvida de dantes: ‘foi ou não foi?’

Dado o carinho com que aquela grande refinada dama se referia ao meu pai, quase tive o segredo descoberto. Ela foi ou não namoradinha de meu certinho pai?

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Este texto foi escrito por Paulo E. R. de Abreu e publicado no jornal local. É mais que uma história de saudades e lembranças.

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Albanácia

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Mesa de canto. A dicróica ressaltava as mãos suadas e agitadas e o brilho do esmalte vermelho vibrante. Ele tinha certeza que elas dançavam, pra ele, num ritual convidativo.

Ele preferia essas. Bem como a carne mal passada, o animal gritando, o sangue escorrendo aos poucos e colorindo o arroz.

Quando, finalmente, pousaram tranquilas sobre a mesa, ele a espetou. Segurou o garfo com força e começou a cortá-la, com a faca de serrinha meio cega mesmo, porque comer com as mãos não seria educado.

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Entranha coraçonada

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Alimento egos e mentes deturpadas. Distorço realidades. Crio doenças, taras e dependências. Sou a droga dos emocionalmente perturbados. Dos que só vertem elogios líquidos. Fantasio-me de coragem e sorrisos e te vicio. Tripudio. Despersonifico os que fogem para que aprendam, comam e cuspam. Dou vazão a medos e obsessões. Cobro. Cego. Mato. Confesso e, mesmo assim, você me deseja.

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Mar_de_eme

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Conversas na cozinha, regadas a um bom vinho.

No final do dia, só nós dois. No nosso cantinho do sofá, aconhegados, olhando a paz que nos invade pela parede rasgada.

Entre aquarelas, arco-iris e dias nublados, por vezes, nossos papéis se confundem. Menos hoje. Hoje, sabemos. Hoje, somos, apenas.

Você foi. Mas sua presença continua. Seu cheiro. E, como me disse, sua vontade também ficou. Não vou guardá-la. Deixo-a ir. De volta.

Essa vista me traz você. Não consigo evitar. Não quero evitar. A música. A subida. A nossa receita. Não só hoje.

É mais que uma lembrança: você voltou. Pela janela, perde-se nesse Mar_de_eMe, sorri com os olhos brilhando e me chama.

Só Hoje – Jota Quest

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