Arquivo para junho, 2010

Intento de corpo vivo

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Não possui matéria viva suficiente. Não tem dentro. A custo um único resquício buliçoso: os olhos. Eles atraem o olhar de sua vítima e, nele, fixam-se. Invadem-na, devastam-na, devoram-na.  Sua função, não é somente ver, é sorver-lhe a alma.

O fim não é imediato. Tem-se, antes, o deslustre, a apatia mordaz. Como lâmpada que perde o brilho, a vida vai se esvaindo, aos poucos, do corpo inerte. No desenlace, uma fugaz centelha anuncia o último suspiro. Cumpre-se o vaticínio: enluta-se o sonho e a carne se desfará.

O sugador infame de almas, então, banqueteia-se dos restos, da dor. Regala-se sobre as cinzas. Perpetua-se de forma expirante pela soma de tudo que foi perdido. Almeja a transição inversa, quando não mais será apenas um amontoado de sobras funestas.

O contorno de linha de um corpo começa a surgir, um quase homem.

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# conto inspirado no livro ‘A Passagem Tensa dos Corpos’ de Carlos de Brito e Mello.

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Just a little bit[e]

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– Não foi isso que eu disse.

– Foi sim.

– Como você é teimosa. Vou começar a gravar agora.

– Gravar o quê?

– Nossas conversas, minha lerdinha.

– Me solta! Não sou lerda.

– Só quando quer.

[…]

– E não adianta fazer biquinho.

– Que biquinho? Não estou fazendo nada…

Está sim! […] Você sabe que te amo. Ainda mais assim, bravinha. Vem cá, vem…

– Que vem cá, que o quê?! Sai pra lá, senão te mordo.

– Hum… jura? Morde vai, morde que eu gamo ainda mais.

– Você é doido.

– E você é linda!

– Não adianta.

– Nem se eu chegar assim bem pertinho e te disser que […]? Tem certeza?

– Não… não tenho mais certeza de nada…

– Então, […] ?

– Uhun.

– Isso eu quero gravar, de verdade, e também vou […] !

[…]

– Ai, sua doida! Estava só te provocando! Ah, quando eu te pegar…

[…]

“Tem beijo que parece mordida
Tem mordida que parece carinho
Tem carinho que parece briga
Tem briga que aparece pra trazer sorriso”

Sonho de Uma Flauta – O Teatro Mágico


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Atrevida?

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Hoje, tem conto meu aqui.

O que acham? Estou muito atrevida?

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Nas ruínas, sentimentos eram as mercadorias

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O Sandi lançou o desafio e indicou, para dar início à aventura, ninguém menos que o talentoso e perverso Gustavo; que me ‘passou o bastão’. Eu, claro, topei.

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Capítulo II – Nas ruínas, sentimentos eram as mercadorias

E assim, eu cresci. Cercado pelo mistério das construções de nosso bairro e da minha procedência. Seguindo o exemplo de meu pai e observando a atitude sécia de minha mãe, aprendi a negociar, manter as aparências e usar minhas virtudes para conseguir o que queria.

Recebíamos poucas visitas. Apenas os amigos da igreja faziam companhia a ela, em tardes indistintas e lânguidas. Ela nunca me ensinou a rezar. Mas a pontualidade da fé sempre me instigou. E cintilava meu dia, já que, durante a presença de estranhos, eu poderia parar de estudar e ainda ganhava alguns trocados, desde que fosse, imediatamente, à venda, gastá-los.

Meu pai era escasso em atributos físicos. Baixinho, franzino. Seus cabelos, bem tratados, brilhavam, mas havia indícios de que não durariam. Óculos fundos. A compensação vinha do sobrenome, da educação, da inteligência e, claro, da confortável situação financeira. Eu admirava seu senso de humor apurado, seu gosto pela leitura. O oposto de minha mãe.

Um dia, questionei-o acerca das viagens, e aprendi sobre algo que ele estava prestes a perder. ‘Um homem precisa se sentir livre’, dizia ele. E ele sempre o foi, até conhecê-la.

Acostumei-me a receber o que eu achava ser amor, como recompensa. Aos domingos, após o almoço, sentava em seu colo e relatava minha semana, estudos, descobertas e, principalmente, as atividades religiosas de minha mãe.

Ele, logo depois, confrontava-a. Eu ainda não entendia, mas a retribuição me confortava.

Ele sempre cedia. Ela, manhosa, conduzia-o com maestria. E ele sabia. Inclusive que, para não perdê-la, sustento e luxo não eram suficientes. Mais presença se fazia necessária. A frequência e a duração de suas viagens diminuíram. Bem como as preces vespertinas; porém, nenhuma das duas cessou.

A ambição de minha mãe gritava, exigindo que se precavesse. Preocupava-se não com meu bem estar e sim com seu próprio. Como o matrimônio estava fora de cogitação – vim a saber que meu pai já era casado – eu era, então, sua única esperança. Ela exigiu que ele me reconhecesse como filho lídimo, caso contrário, o abandonaria. Ele, então, o fez.

Fomos a um cartório de nome imponente, numa rua sem saída, de paralelepípedos. Lembro do cheiro de velho e da minha mãe dizendo que, por ser no dia do meu aniversário, não ganharia presentes. E esse me bastava: meu renascimento. Uma nova origem. A mim, agora, pouco importava a antiga. Eu conseguira um pai, na certidão.

Nesse instante, não só a nossa história – minha e de minha mãe – começou a mudar. A de meu pai, agora legítimo, também.

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O terceiro ficou por conta da Ana.

A sequência virá pelas mãos do Paulo, que indicará o próximo e, assim por diante… não percam!

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Tão nosso

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Alguns momentos são tão ansiados que dão até medo. De que percam a especialidade, quando acontecerem. De que o sonho, ao tornar-se realidade, perca o encanto.

Mas eis que a hora chega. Mãos suadas, coração acelerado, leve tremedeira… daquela que sentimos por dentro, sem sentir frio. Na verdade, o que invade é um calor que vai subindo, subindo… bochechas carmins, sinto-me corada, quente. Denúncia em todos os sentidos. Tento disfarçar, com minha cara bravinha. Mas é em vão. Bato o pezinho, agitada. Mordisco os lábios.

Com o tempo, conversa, música… a tensão vai embora… o corpo só não se acalma porque o nervosismo dá lugar ao desejo. E esse também queima. É como um sopro que inflama a brasa.

E mesmo que nada aconteça como imaginado [aliás, expectativas deveriam ser engarrafadas] tudo será especial. Cada toque será verdadeiro. Cada troca tímida e cúmplice de olhares. Cada sorriso.

A magia e o romance não se quebram, tornam-se reais. E a vontade sai do papel. Toma forma, gosto. O cheiro fica, em nós, impregnado. E, junto com ele, agarrado a meu corpo, levo as lembranças. Só nossas.

Como descrever? Impossível, talvez. Ainda não inventaram palavras para algo tão… tão… tão nosso!

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Addicted To Love – Robert Palmer

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